A questão da troca de afetos entre homossexuais em locais públicos

Por Livio Claudino e Cristiano Goldschmidt

Cena I

Ao chegar em casa, abro a porta do prédio e entro. Aos fundos, no final do corredor, acompanhados do neto, do alto de seus sessenta e poucos anos (talvez mais), um casal aguarda pelo elevador. A vovó, muito falante, reclama do condomínio e das medidas adotadas nos últimos tempos. Está indignada com a luz do corredor que permaneceu apagada no final de semana, o que a fez tropeçar, por pouco não levando-a ao chão. Concordo com ela, apesar de discordar do exagero de sua manifestação. Já no elevador, sua indignação subitamente volta-se para outro assunto.

– Não dá para aguentar. O senhor acredita que não conseguimos mais deixar as janelas do quarto e da sala abertas? Todos os dias somos obrigados a ver homens e mulheres se beijando ali no jardim da Casa de Cultura Mario Quintana (Jardim Lutzenberger). Eu nunca tinha visto homens se beijando na minha vida. Onde é que nós vamos parar com esse desrespeito? Mas eu já falei pro João (nome fictício para preservar sua verdadeira identidade), vamos fotografar e mandar pros jornais. Já disse para o síndico que quero colocar vidros escuros na sacada, mas ele respondeu que o pessoal do Patrimônio Histórico não deixa, porque vai descaracterizar a fachada do prédio. Eu vou lá nesse Patrimônio Histórico reclamar, porque a Casa do Quintana também está descaracterizada com esses homens se beijando ali no jardim, quase dentro da minha casa. O senhor não acha que estou certa?

– Olha minha senhora, eu não tenho coragem de beijar meu namorado em público. A gente só se beija em casa.

E um silêncio sepulcral toma conta dos últimos segundos em que permanecemos juntos no elevador.

A vida real

A cena descrita acima é real e serve para ilustrar como não questionamos e apenas reproduzimos determinados valores e regras que nos foram ensinados, sem nos preocuparmos com suas possíveis consequências. O que importa, na maioria das vezes, e para a maioria das pessoas, é que com seu argumento consigam persuadir e convencer o outro, como se falar daquilo que se crê verdadeiro fosse igual a dizer a verdade. No caso, essa senhora crê que um beijo entre pessoas do mesmo sexo, em local público, é algo desrespeitoso e ofensivo, não considerando a possibilidade de alguém pensar diferente daquilo que ela e boa parte da população são condicionadas desde sempre a tomar como verdade.

O comportamento preconceituoso da senhora, que transfere para seu neto (ainda criança) a ideia de que o amor e as demonstrações públicas de afeto entre pessoas do mesmo sexo é uma aberração, desencadeou uma posterior reflexão e discussão, tratadas nesse artigo, sobre as posturas éticas adotadas ao falarmos de tema tão polêmico quanto discutido na atualidade.

As consequências de expressar-se ou não com beijos e carícias em locais públicos

O filósofo francês Michel Foucault, homossexual assumido, em sua “Conversa com Werner Schroeter”, em 1982, já falava com naturalidade sobre o relacionamento que mantinha com outro homem: “Vivo há 18 anos num estado de paixão diante de alguém, por alguém. Talvez, num dado momento, essa paixão tenha tomado as feições do amor. Na verdade, trata-se de um estado de paixão entre nós dois, um estado permanente… nele estou completamente implicado, ele passa através de mim. Creio não haver nada no mundo, nada, seja lá o que for, que possa vir a me deter, quando se trata de ir encontrá-lo, lhe falar.”

Em tese, demonstrações de afeto e troca de carícias como beijos não são proibidos em nossa sociedade. Somos criados vendo nossos pais e outros casais exercendo livremente esse direito. O beijo em espaços públicos simboliza, legitima e marca o início da união afetiva entre duas pessoas. No entanto, essa regra não vale para pessoas do mesmo sexo, para quem a simples demonstração de afeto não pode tornar-se pública sob o risco de sofrerem represálias dos mais intolerantes.

Quem nunca sentiu vontade de beijar a pessoa desejada e ficou intensamente mal por não poder fazê-lo? Entre os homossexuais, essa tensão é constante, mesmo quando há reciprocidade e local adequado. O fato de os jovens homossexuais (na fase de desenvolvimento de sua sexualidade) não poderem expressar seu afeto em locais onde normalmente os heterossexuais em idade equivalente o fazem, certamente inibe o pleno e saudável desenvolvimento de suas emoções e expressões afetivas, seja por envergonharem-se dos próprios sentimentos e desejos, seja pelo medo de serem repreendidos ou violentados. Normalmente esses jovens percebem desde cedo que essa condição lhes é desfavorável, e por medo ou insegurança não conversam sobre sua homossexualidade com os responsáveis e educadores.

Não restam dúvidas que a impossibilidade de os homossexuais demonstrarem seu afeto publicamente força-os a iniciarem suas descobertas em locais isolados. Essa intimidade inicial, essencial para o processo de conhecimento e o fortalecimento de vínculos afetivos, deveria transcorrer naturalmente, permitindo o ‘leve caminhar’ de um namoro, como o é para os heterossexuais. Situações corriqueiras no universo heterossexual, como andar de mãos dadas, acariciar-se no banco da praça, beijar o rosto no restaurante ou despedir-se com um selinho apaixonado, são o sonho impossível para a maioria dos homossexuais. Essas demonstrações de carinho, por mais simples que sejam, acontecem isoladas dos olhares maldosos, geralmente em guetos muito específicos.

Entre os homossexuais, a intimidade que deveria iniciar lentamente, é grosseiramente e ligeiramente empurrada para dentro de espaços fechados, antes do amadurecimento desejável e necessário possibilitado durante esse processo de “conhecimento público”, como acontece com os heterossexuais em idade adequada e socialmente aceita. O medo de serem flagrados em demonstrações de carinho é constante durante a adolescência, e por vezes, por toda a vida. Enquanto outros jovens usufruem da liberdade de serem vistos na companhia de quem estão conhecendo, para os homossexuais impera a certeza de que se os “outros souberem”, pode acontecer um grande desastre. Como consequências, são frequentes as tentativas de negar a própria sexualidade, forçando relacionamentos heterossexuais, bem como respectivos problemas de personalidade e até mesmo a desistência da vida.

No Brasil, os casos de violência e crimes contra homossexuais têm aumentado nos últimos anos. Muitas vezes, na insegurança de manifestarem-se publicamente, acabam assumindo os riscos de se encontrarem com pessoas estranhas em locais inadequados. Não raro, após serem violentados, acabam sendo culpados (quando não também penalizados) por se envolverem com criminosos que são levados para dentro de suas casas. No entanto, pouco se reflete e se discute sobre a correlação entre os casos de violência e o fato de os homossexuais serem privados de demonstrar publicamente seus sentimentos e afetos, e de não terem resguardados legalmente os seus direitos, tal como acontece entre os heterossexuais.

Questionada pelos autores sobre uma possível influência que a troca de carícias entre pessoas do mesmo sexo poderia exercer na formação de uma criança, a psicóloga Luciana Barcellos Fossi, Mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, ressalta que hoje existem muitas possibilidades de ser e estar no mundo, considerando justo que as diferenças possam ser exercidas com liberdade. Segundo ela, a dificuldade em tratar dos temas da sexualidade com as crianças é quase uma unanimidade entre os pais, lembrando, no entanto, que essa dificuldade é uma característica do adulto, e não da criança. A psicóloga afirma ainda que a troca de afetos entre pessoas do mesmo sexo em locais públicos pode incrementar o rol de perguntas das crianças, contribuindo para avançarmos enquanto sociedade, não somente no respeito aos diversos modos de relacionamentos amorosos, mas também no modo como nos relacionamos socialmente, muitas vezes atravessados por uma moralização em desacordo com a contemporaneidade.

É interessante como no Brasil o tema da homossexualidade foi parar de forma persistente nos elevados espaços de decisão política (Congresso e Senado), especialmente após a última nomeação da presidência da Comissão de Direitos Humanos. No entanto, é evidente que a discussão tornou-se rasa e sectária (repercutindo nas redes sociais), encapsulando o tema a discussões pobres e extremadas, como é o caso dos que afirmam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo propõe a extinção da raça humana. O tema transformou-se em bandeira utilizada especialmente pelos mais conservadores em suas campanhas panfletárias de publicidade política.

Por outro lado, o beijo na boca, que representa a expressão primeira do afeto pelo parceiro sexual, virou símbolo de luta. Diversos artistas e personalidades favoráveis à liberdade de expressão homossexual têm utilizado publicamente o selinho na boca para demonstrar seu apoio à causa, num esforço conjunto pela busca da transformação dos valores, ressignificando essa demonstração de afeto, ampliando-a para a coletividade, no anseio de que o livre direito de amar seja aceito pela sociedade e legitimado pelo Estado.

O casamento civil igualitário

Em um de seus pronunciamentos na Câmara Federal, o deputado Jean Wyllys lembrou que os homossexuais, apesar de contribuírem com o Estado e cumprirem com todos os seus deveres, são alijados de 78 direitos, gozando de apenas parte dos direitos civis permitidos aos heterossexuais, não usufruindo de direitos que são fundamentais, como o direito inalienável à vida e à felicidade, que está ligada, por exemplo, à liberdade que cada um tem de constituir uma relação conjugal protegida pelo Estado.

Depois da Argentina, com os votos de 71 de um total de 92 deputados, o parlamento uruguaio foi o mais recente vizinho brasileiro a aprovar o Projeto de Casamento Igualitário, apoiado pelo governo do presidente José Mujica. Poucos dias depois dos uruguaios, a Nova Zelândia também comemorou a legalização do casamento homossexual, chancelado por dois terços do parlamento local. No dia 23 de abril, a França tornou-se o 14º país a admitir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, autorizando também a adoção de crianças por casais homossexuais.

Luciana Fossi considera que o crescente reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo no cenário internacional potencializou a importância das discussões sérias sobre o assunto no Brasil. Relações que antes não tinham o reconhecimento jurídico, agora passam a configurar uma possibilidade legítima diante da lei. Sendo assim, tudo indica que o beijo, o abraço e as mãos dadas passam também a ser práticas legitimadas por diversas sociedades. Não que haja a necessidade de um reconhecimento jurídico para que as relações homo afetivas sejam possíveis, mas, sem dúvidas, o status de “legalidade” da união entre pessoas do mesmo sexo potencializa o necessário e urgente rompimento de julgamentos moralizantes.

Como já aconteceu na Holanda, Bélgica, Canadá, África do Sul, Noruega, Suécia, Portugal, Islândia, Argentina, Uruguai, Dinamarca, Espanha, e França, assim como em seis Estados dos EUA e, no México, na capital e no Estado de Quintana Roo, o Brasil, lembrado e reconhecido no exterior por sua diversidade étnica de múltiplas manifestações culturais, é agora o 3º país latino que legalmente (por meio de decisão no CNJ) obriga os cartórios a realizarem os casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Livio Claudino é engenheiro agrônomo, doutorando em Desenvolvimento Rural (UFRGS)
Cristiano Goldschmidt é jornalista e pedagogo, pós-graduado em Pedagogia da Arte (UFRGS)

Artigo publicado originalmente em Sul21, no dia 27 de maio de 2013: http://www.sul21.com.br/jornal/2013/05/a-questao-da-troca-de-afeto-entre-homossexuais-em-locais-publicos/

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