O Maçambique de Osório e as Musicalidades Quilombolas do Sul do Brasil

Imagem

No próximo sábado 23 de março, Luciana Prass, professora adjunta do Departamento de Música do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lança, pela Editora Sulina, às 11h, no Museu da Universidade, o livro “Maçambiques, Quicumbis e Ensaios de Promessa: musicalidades quilombolas do sul do Brasil”, fruto de pesquisa etnomusicológica desenvolvida entre 2006 e 2009 para sua tese de doutorado. Foram três anos de observação e convivência com quilombolas de Osório e das comunidades de Casca, em Mostardas e Rincão dos Negros, em Rio Pardo, acompanhando suas práticas musicais e resgatando histórias sobre elas.

Acostumada a levar seus alunos para conhecer o Quilombo do Morro Alto e uma das manifestações culturais e religiosas mais antigas do Estado, o Maçambique de Osório, pude acompanhar a professora em uma dessas visitas em outubro de 2012, oportunidade em que lá esteve com os alunos da disciplina de Práticas Musicais Coletivas do curso de Pós-Graduação em Pedagogia da Arte, da Faculdade de Educação da UFRGS. Na ocasião, além de conversar com alguns universitários e com a pesquisadora, registrei os depoimentos de Francisca Dias, a “Preta”, presidente da Associação Religiosa e Cultural Maçambique de Osório.

O Rei do Congo e a Rainha Ginga

Depois de Nossa Senhora do Rosário, o Rei do Congo e a Rainha Ginga são as figuras mais importantes para o Maçambique de Osório, formado por descendentes do quilombo do Morro Alto, hoje migrados para a cidade.

Os reinados do Rei e da Rainha são vitalícios, sendo substituídos somente após sua morte. Ambos representam o elo entre a herança africana e a condição de vida atual da comunidade quilombola – com seus problemas, dificuldades e alegrias. “Eles representam a mediação entre os ancestrais e os jovens. Sabemos, de acordo com os historiadores, que o Rei do Congo e a Rainha Nzinga Mbândi eram inimigos na África; porém, aqui na congada, eles fazem parte de uma irmandade. São irmãos tanto do ponto de vista religioso e simbólico, quanto em termos de parentesco”, afirma Francisca. Para a comunidade, a pessoa mais importante é a Rainha Ginga. “É ela que conhece as rezas e as formas de dar as bênçãos. Faz a ligação entre os devotos e a Nossa Senhora do Rosário, que é a nossa santa e nossa primeira mãe”.

Francisca, assim como outros integrantes da comunidade quilombola que atualmente residem na cidade de Osório, conta aos alunos da UFRGS que seu envolvimento com o Maçambique aconteceu desde muito pequena, quando morava no Quilombo de Morro Alto. Ainda criança, observava o avô e o pai saírem para participar do Maçambique. Naquele tempo, as mulheres não podiam acompanhá-los. “A gente escutava as batidas dos tambores e os cantos de devoção, ficava empolgada, mas tinha que ficar em casa”, recorda.

Mais tarde, seu primeiro marido, além de não participar do Maçambique, não deixava que ela fosse às festas do Rosário. Na época, sua mãe tornou-se pajem de duas grandes rainhas, as célebres Maria Teresa e Tomásia. Depois, foi sua vez de ser coroada Rainha Ginga, e desde então Francisca acompanha de perto as atividades da mãe e do grupo Maçambique de Osório, auxiliando o Chefe do Grupo, Faustino Antônio, os reis e os dançantes, que são o coração da congada.

Enquanto tiver crianças a serem oferecidas para Nossa Senhora, ou promessas a serem pagas para ela, sempre existirá o Maçambique.  Os “dançantes” são oferecidos ainda bebês para Nossa Senhora do Rosário. Com o passar dos anos, e com a evolução de sua participação, podem se tornar guias, capitães de espada, tamboreiros ou chefes de tambor do Maçambique. Quem sabe, até Reis do Congo. As tradições são passadas oralmente de pais para filhos, de geração em geração e, embora nem todo mundo participe do grupo, muitos pagam promessas por graças alcançadas. Existem alguns trabalhos que registram os “cantos de devoção”, a dança e a batida do tambor, considerados o coração e a alma do grupo. E pouca coisa mudou em todos esses anos de tradição.  Os antigos dançavam de forma mais lenta. Hoje os jovens aceleram na dança. Mas a essência, que é sua fé, permanece a mesma.

A origem do Maçambique

Sobre a origem do Maçambique de Osório, a comunidade faz questão de acompanhar o resultado dos trabalhos feitos pelos pesquisadores das áreas da música, antropologia, geografia e história. Costumam observar tudo, ler as publicações, e perguntam muito sempre que surgem dúvidas. Mas são as histórias contadas por sua mãe, pelo seu tio Sebastião, o Rei do Congo, pela tia Maria Teresa e pela Tomásia, que Francisca traz na memória desde a mais tenra idade.

Os relatos dos antepassados dão conta de que o Maçambique foi herdado dos africanos escravizados no Brasil. Neste sentido, não divergem das informações oficialmente divulgadas pelos pesquisadores. Alguns mitos, no entanto, referem-se ao começo da festa do Rosário, conforme relata Francisca: “Desde criança ouvia os mais velhos contarem que um negro estava sendo torturado num palanque, a mando do seu patrão, um fazendeiro muito ruim, quando apareceu um cavaleiro vindo de longe, trazendo uma mensagem. Ele entregou a mensagem ao patrão, porque o negro não sabia ler. A mensagem era um convite da Nossa Senhora do Rosário para que aquele negro fosse liberto para fazer a festa do Maçambique para ela. Por isso, a cada ano, é escolhido um ‘festeiro’ negro, que tem um ano pela frente para organizar a festa do Rosário, que acontece sempre na primeira semana de outubro. O negro escolhido anualmente representa aquele primeiro escravo festeiro”.

A relação com a comunidade de Osório

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sempre que possível, convida o grupo de maçambiqueiros para participar de seus eventos; com isso eles estão adquirindo maior respeito na própria cidade de Osório, que, segundo a pesquisadora Luciana Prass, carrega um histórico de fases melhores e fases piores nas relações entre a igreja, o poder público e a comunidade negra. Segundo ela, nesse momento eles vivem uma fase muito boa, de respeito com a manifestação, de ter algumas facilidades, como um ônibus e uma verba específica destinados anualmente pela Prefeitura para ajudá-los no desenvolvimento da festa. Conforme Bittencourt Jr. (2006, p. 137), “no ano de 1991, a prefeitura municipal de Osório, sob a administração do prefeito Ciro Carlos Emerim Simoni, publica a Lei n.º 2.359, de 29 de julho de 1991, [que] regulamenta o artigo de n.º 175, da Lei Orgânica Municipal. Na referida Lei, no Capítulo IV – Da Cultura, o artigo de n.º 173 dispõe da seguinte orientação: ‘cabe ao Município preservar e apoiar a manifestação afro – Moçambiques’”. Mas é sempre um trabalho contínuo. Os integrantes do Maçambique de Osório não podem interromper as negociações. Não podem “baixar a guarda”. Precisam estar sempre atentos pra que a manifestação continue.

Depois que vi minha mãe sendo desrespeitada por uma coordenadora da prefeitura da minha cidade (alguns anos atrás), prometi que nunca mais, nem ela, e nem o grupo, seriam desrespeitados. Foi quando assumi a relação entre o grupo e os órgãos públicos. Mais tarde assumi a presidência da Associação Religiosa e Cultural [Maçambique de Osório], criada justamente para defender nossos interesses e tentar desenvolver projetos sociais e culturais. Muita coisa mudou desde então, mas o preconceito e o desrespeito, principalmente na nossa cidade, ainda vigoram. Tivemos muitos avanços nas relações políticas, sobretudo por parte do atual prefeito, que sempre se colocou como devoto e admirador do grupo”, relata Francisca Dias.

A principal característica do grupo de maçambiqueiros é preservar o patrimônio imaterial da cultura negra e a sua forma particular de devoção a Nossa Senhora do Rosário: cantando, dançando e batendo os tambores. Ao se valer de linguagens que diferem das comumente apresentadas pela comunidade católica, essa manifestação de fé ainda encontra dificuldades para ser aceita pelas pessoas da cidade, onde o Quilombo de Morro Alto e os maçambiqueiros estão inseridos. “É uma forma diferente de demonstrarmos nossa fé, mas a fé é dirigida para a mesma santa”, explica Francisca.

Na festa que ocorreu em outubro de 2012, foi fácil constatar que o Maçambique é prestigiado muito mais por visitantes de fora, que acompanhavam a procissão e as festividades, do que pelos próprios moradores. Daí conclui-se que o grupo contribui positivamente na divulgação da cidade, com sua imagem diretamente ligada a esta.

É com sua participação em eventos fora de Osório que os maçambiqueiros atraem cada vez mais pessoas para a festa que lá acontece todos os anos, no mês de outubro. Foi por ter se emocionado com o “cortejo real” do grupo em um evento no cais do porto, em Porto Alegre, que um grupo de estudantes aceitou o convite da professora Luciana Prass e deslocou-se da capital gaúcha para prestigiá-los na cidade do litoral norte gaúcho.

Ter conhecido o Maçambique foi uma experiência muito rica, pela sua história, cultura e tradição. Poder presenciar as crianças da comunidade, desde pequenas, tão interessadas na música, possivelmente influenciadas pelos cantos de devoção e pelos ‘dançantes’, e vê-las participando da festa e da procissão juntamente com os adultos, foi algo que me tocou profundamente. Volto para casa desta viagem me sentindo plena, pela forma carinhosa e acolhedora que as pessoas de lá nos receberam.” Rita Santayana, formada em música pela UFSM (bacharelado em flauta transversa) e pós-graduada em Pedagogia da Arte na UFRGS.

Talvez o mais difícil para os membros do Maçambique de Osório seja falar da saída do quilombo do Morro Alto, que hoje luta para garantir as suas terras, para fazer valer o legado que foi deixado em testamento para 18 ex-escravos. É um direito que foi definido na Constituição Federal de 1988, por meio do artigo 68 da Disposições Transitórias e do decreto 4.887, de 2003. Por isso o governo deve titular as suas terras.

A saída das famílias do quilombo do Morro Alto aconteceu porque as empresas mineradoras que trabalham com a extração de pedras na região, e que exploram esse comércio, foram avançando com explosões em áreas próximas as casas da comunidade, ameaçando as pessoas e expulsando-as do local. “Tivemos também a manipulação de advogados que nos procuravam para defender os nossos direitos nos processos que movíamos contra as mineradoras. Mas a pressão foi tanta, que no período de uma determinada administração municipal de Osório, muita gente comprou terrenos e veio morar na cidade. Outros ganharam terrenos, saindo às pressas do quilombo. Muitos ainda resistem na área, aguardando pela garantia legal de suas terras. Hoje, no lugar onde eu e meus parentes morávamos, existem crateras comendo o morro, destruindo a natureza, e isso nos dói bastante”, relata Francisca Dias.

Francisca faz questão de lembrar que o quilombo tem um laudo antropológico muito bem elaborado por uma equipe de antropólogos da UFRGS, coordenados pela Profa. Daisy Macedo de Barcellos e, mesmo já publicado pela Editora da UFRGS, em 2004, sob o título Comunidade Negra de Morro Alto: historicidade, identidade e territorialidade, ainda não permitiu que as terras do Morro Alto sejam tituladas. “Sei que há um conflito aberto entre agricultores brancos e negros, mas tem que se buscar um entendimento de modo que se possa contemplar ambas as partes, mas de forma que ela não seja com a perda dos direitos dos quilombos, já assegurado pela Rosa Osório Marques, que era dona da fazenda de Morro Alto e que em testamento doou as terras para os negros”.

O trabalho dos pesquisadores

As teses e outros trabalhos que foram feitos na comunidade contribuíram para que o grupo não só passasse a ter mais visibilidade, mas também para que eles tivessem acesso a esse material de cunho teórico e científico que deu maior organicidade na sua história.

Luciana Prass foi construindo uma relação de respeito com os membros da comunidade, que perceberam que ela não estava com pressa em responder perguntas, mas queria, antes de qualquer coisa, privar de sua convivência. E isso foi muito positivo, afirma Francisca Dias.

Quanto aos resultados alcançados com sua pesquisa de doutorado, e sua repercussão, Prass considera que foi uma grande conquista a própria devolução para a comunidade, dos documentos e gravações feitas em 1946 pelos pesquisadores Ênio de Freitas e Castro e Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, a que teve acesso através do Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ. Francisca observa que mesmo organizado em uma associação, o grupo Maçambique de Osório encontra dificuldades na realização de seus projetos, e que se não fosse a ajuda voluntária de muitos pesquisadores, as dificuldades seriam ainda maiores.

A oportunidade da visita ao Morro Alto e ao Maçambique de Osório serviu não só para buscar subsídios para suas aulas, mas principalmente para refletir sobre como o ensino da música pode contribuir para construir e fortalecer os laços afetivos entre os alunos, amenizando ou até mesmo eliminando as posturas racistas na comunidade e no ambiente escolar, afirmou a artista-educadora e professora de história em Porto Alegre Diana Kolker Carneiro da Cunha, Pós-graduada em Pedagogia da Arte pela UFRGS. Para Vanessa Farenzena, pós-graduada no mesmo curso e professora dos Anos Iniciais em São Leopoldo, “Conhecer um pouco da história do Maçambique e da Comunidade Quilombola de Morro Alto foi uma experiência muito bonita. Os relatos da Preta, feitos do alto do morro foram uma aula sobre resistência. Saímos de lá com outra visão sobre a vida numa comunidade rural quilombola. Foi forte vê-los entrar na igreja, o choque e o contraste de culturas, e chamou nossa atenção as poucas pessoas da comunidade que acompanharam a procissão dos maçambiqueiros antes e depois da missa. O momento das danças, dos cantos de devoção, das bênçãos, foi de encher os olhos e o coração. Foi uma troca bastante intensa. Fico feliz pela oportunidade do contato com essa coisa bonita que é o grupo Maçambique e também por sentir de perto a relação de afeto e cumplicidade que eles mantem com a professora Luciana Prass.

A autora e o livro

Luciana Prass é doutora em Etnomusicologia e integra o Grupo de Estudos Musicais (GEM/UFRGS) desde 1993.

A tese que deu origem ao livro “Maçambiques, Quicumbis e Ensaios de Promessa: musicalidades quilombolas do sul do Brasil” recebeu o Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música 2012.

O lançamento ocorre no sábado, dia 23 de março, no Museu da UFRGS, com apresentação do Grupo Maçambique de Osório, tendo à frente o Chefe Faustino Antônio.

2 comentários sobre “O Maçambique de Osório e as Musicalidades Quilombolas do Sul do Brasil

  1. Exposição “Maçambique de Osório”

    A mostra retrata as manifestações religiosas afro-brasileiras de devoção católica, vivenciadas por meio da liturgia católica e rituais performáticos de matriz africana pela comunidade negra, o maçambique, conforme conceituado pelo antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Júnior. As fotos são de autoria do fotógrafo Wagner Innocêncio Cardoso, aluno do curso de Geografia da UFRGS, e os textos, extraídos dos relatos de campo elaborados pelos alunos da disciplina de Geografia Cultural. A curadoria é de Álvaro Luiz Heidrich.

    De 02/08 a 19/09

    Seg -Sex

    Das 09h às 19h

    ENTRADA FRANCA

    Local: Saguão do ILEA

    Av. Bento Gonçalves, 9500 – Prédio 43.322 – Campus do Vale

    Veja mais no facebook: http://migre.me/fDAi4

  2. Olá,meu nome é Raíra Antonio,sou filha do chefe Faustino Antonio,adorei este post contando toda a história do maçambique,as dificuldades que passaram,e tudo mais,acho que se mais pessoas se enteressassem em aprender mais sobre essa culturura o maçambique seria mais reconhecido no RS!Obrigado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s