Entrevista com Wladyslaw Miodunka – Nos meandros da Língua Portuguesa, versão brasileira

 

A entrevista que realizei com o então Diretor do Instituto Polônico, Wladyslaw Miodunka, e reproduzida abaixo, foi publicada originalmente na Revista Tribuna de Santo Ângelo – RS. ANO I – Nº 6 – Junho de 1997. Mantenho a versão original, sem revisão e correções e sem atualizar as informações profissionais do entrevistado.

Wladyslaw Miodunka é professor de Linguística Aplicada na Universidade Jagueloniana em Cracóvia, na Polônia, e, desde 1973 dedica-se ao ensino de polonês como Língua Estrangeira na Polônia e no exterior. Foi professor visitante nas seguintes universidades: Universidade de Toulouse – Le Mirail (França, 1973-1977); Universidade de Wayne, Detroit, Mi. (USA, 1980-1981); Universidade de Adelaide, (Austrália, 1986), Universidade de Staford, Palo Alto, CA. (USA, 1988-1990); Universidade Federal do Paraná, Curitiba, (Brasil, 1995-1996). É autor e editor de inúmeras publicações acadêmicas, entre as quais: Linguagem e Nação, (1987), Fundamentos de Leksicologia e Leksicografia, (1989), Língua Polonesa no Mundo, (1990), Língua Polonesa no Mundo como Língua Estrangeira e Programas de Ensino, (1992), Mestres, Professores e Discípulos – Educação Polonesa no Exterior, (1994). E ainda manuais de ensino de Língua polonesa como: A Polônia e o Polonês, (com João Wrobel, 1986), Pronúncia Polonesa para os Francófanos, (1987); Oi, como vai você? (1993-1996). Atualmente Wladyslaw Miodunka é diretor do Instituto Polônico – Centro de Língua Polonesa para Estrangeiros na Universidade Jagueloniana, também em Cracóvia.

Christian: Professor Miodunka, a Língua Portuguesa é uma das mais importantes do mundo levando-se em conta o número de países onde ela é falada. É a língua oficial em Portugal, no Brasil e em mais cinco países africanos: Angola, Moçambique, Guiné Bissau, República da Ilha de São Tomé e Príncipe e ainda nas Ilhas de Cabo Verde juntas. Além disso, o que fez o senhor se interessar pela Língua Portuguesa na versão brasileira?

Miodunka: Primeiramente quero falar que os poloneses estudam a Língua Portuguesa como língua ligada à cultura de Portugal. Sabem entretanto que na América Latina tem-se um enorme país onde também se fala o português. Penso que os jovens poloneses se interessam mais pela música, literatura e cultura brasileira do que pela portuguesa. Por isso, também falo geralmente que o futuro da Língua Portuguesa se encontra no Brasil e não em Portugal. É por esse motivo que me interessa como linguísta, a Língua portuguesa, na versão brasileira. Como pessoa, observo que é uma maravilhosa e simpática língua, assim como são simpáticos todos os brasileiros que eu conheci.

Christian: O Instituto Polônico – Centro de Língua Polonesa para Estrangeiros é uma das mais conceituadas e organizadas escolas de Língua Estrangeira existente. Quando ele foi criado, por quem e com que finalidade?

Miodunka: O Instituto Polônico pertence a um dos mais novos Institutos da Universidade Jagueloniana, a mais velha Universidade Polonesa. O começo do Instituto atinge o ano de 1970, quando na Universidade formou-se um “Centro de Estudos sobre os Estrangeiros de origem Polonesa”. Ligeiramente ocorreu o desenvolvimento desse centro, e isso ocasionou que já no ano de 1976 ele fosse transformado em Instituto. Em 1978 o Instituto começou a operar na forma pela qual podemos ver agora. O organizador do Instituto foi o sociólogo e professor Hieronim Kubiak. Queria ele que cientistas poloneses pesquisassem a história da imigração polonesa para os diferentes países do mundo. Mais tarde a parte de pesquisa juntou-se a parte didática, ou seja, o ensino para estrangeiros. Com essa parte do Instituto você tem agora mais contatos.

Christian: Como é organizada a Didática de Ensino para os estudantes? Existe algum método especial?

Miodunka: Eu penso que as línguas étnicas, ou assim chamadas pequenas, devem ser ensinadas com os mesmos métodos utilizados para se ensinar todas as línguas mundiais, como por exemplo, o inglês. Isso significa que para ensinarmos Língua Polonesa esforçamo-nos para utilizar métodos conhecidos no mundo. O mais novo método que preparei, é um programa de vídeo, “Vamos aprender Polonês?”, composto de 30 lições juntamente com filmes, manuais e áudio-cassetes. Em segundo lugar, quero falar que o Instituto Polônico não é somente um centro onde ensinamos língua. Além dos cursos de línguas, tem aulas de história, cultura, literatura, filme, teatro e assim por diante. Estou orgulhoso especialmente com as novas formas de ensino, assim como a oficina de teatro, raras vezes aplicada no mundo, e dessas eficiências você mesmo pode falar melhor, pois foste um dos atores da peça de Slawomir Mrozek, “Em Alto Mar”.

Christian: Estudantes brasileiros que já passaram pelo Instituto Polônico dizem que sentiram muitas dificuldades com a Gramática Polonesa, mesmo porque as versões dos livros didáticos são em Língua Inglesa e a maioria deles não tem (ou não tinham) conhecimento da mesma. Sei que o livro “Oi, como vai você?”, um dos mais utilizados pelos professores do Instituto, está ganhando sua forma para o português através do Marcelo paiva de Souza. Fale-nos sobre o projeto; existem perspectivas do mesmo ser lançado até o final deste ano?

Miodunka: Entendo a dificuldade dos brasileiros na aprendizagem do Polonês, mesmo porque é uma língua eslava e tem um sistema completamente diferente do português. Além disso, faltavam manuais, bons dicionários, gramática de polonês em português, etc. Nada disso foi feito porque entre a Polônia e o Brasil eram poucos os contatos. Agora isso lentamente está mudando. O manual para brasileiros já havia pensado em fazê-lo há algum tempo, mas sua realidade estava muito difícil: não conhecia a língua e nenhum dos nossos estudantes sentia-se competente para traduzi-lo ao português, etc. Duas curtas estadas no Brasil me deram os fundamentos da Língua Portuguesa, o resto – Deus me deu. O “resto”, é o Marcelo, que caiu do céu: é competente, trabalhador e conhece bem a terminologia gramatical. Se tudo correr bem e se arranjar como até aqui, o manual deverá estar pronto até o término deste ano.

Christian: O senhor é um grande conhecedor da cultura Latino-Americana, mais precisamente do Brasil devido às suas estadas no país. Em recente encontro com os embaixadores do Brasil e da Argentina juntamente com o Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Reitor da Universidade Jagueloniana, Presidente do Clube dos Jornalistas Poloneses dentre outras autoridades, citou-se muito a questão de divulgação da Polônia nesses dois países que são os maiores da América Latina e que concentram o maior número de pessoas que para lá migraram durante e após a II Guerra Mundial. Segundo o senhor, como deve ser feita essa divulgação?

Miodunka: É, o encontro teve como objetivo a união para contatos econômicos e comerciais, como também contatos culturais. Pessoas que cooperam entre si devem se entender, devem conhecer as suas línguas e suas culturas. Para esses contatos, podem ser úteis os imigrantes poloneses da América Latina que não tinham até aqui próximos contatos com a Polônia. Todavia, quando falo da divulgação da cultura polonesa, penso na divulgação da cultura dos eslavos. Os eslavos são grandes e demais importantes grupos de pessoas da terra para que não se ocupe deles, por exemplo, na América Latina. E como você sabe, na América Latina não se tem uma tradição de estudos eslavos.

Christian: Também no mesmo encontro falou-se da criação de um Instituto de Cultura Latino Americana subordinado a Universidade Jagueloniana. O que virá a ser esse projeto?

Miodunka: Quando falo de estudos eslavos por exemplo no Brasil, sei que esses interesses deveriam ser recíprocos. isso significa que os poloneses deveriam estudar as línguas e culturas da América Latina, interessarem-se pela história e problemas sociais. O maior Centro de Estudos Latino – Americanos está na Universidade de Varsóvia. Gostaria que tal centro tivéssemos também em Cracóvia, onde os estudantes estudassem porém, a Língua Espanhola e Portuguesa. Já nesse ano, em nossa Universidade, a Professora Regina Przybycien expôs a História e a Literatura Brasileira, agora Marcelo falará sobre literatura e cultura brasileira contemporâneas. Tenho esperança que de tais aulas se forme todo o centro.

Christian: Para encerrar, fale-nos de sua experiência como professor e ao mesmo como estudante no Brasil.

Miodunka: Eu queria muito trabalhar no Brasil, mas, ao mesmo tempo, temia essa experiência, pois era um trabalho em outra língua, em outras culturas, com pessoas de outras mentalidades. Em tais situações tenho meu próprio método: ensinar a outras pessoas a língua polonesa e ao mesmo tempo aprender as suas línguas. Gosto muito disso, gosto muito de ser estudante, gosto de aprender. Meus professores foram pessoas novas, simpáticos brasileiros: Caetano e Juliana, estudantes de Curitiba. A única dificuldade de fato, é que pela manhã eu trabalhava na Universidade e, à tarde estudava a língua. Com frequência estava cansado, e sendo assim, para relaxar e mesmo para me exercitar, assistia televisão, como por exemplo as telenovelas que são conhecidas na Polônia. meus amigos brincavam dizendo que eu seria a próxima vítima da “Próxima Vítima”, novela que na época passava na Rede Globo.

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