Depoimento Professora Dra. Sandra Ramalho para a Biografia de Olga Reverbel

Sandra Ramalho. foto: Arquivo Pessoal.

Sandra Ramalho. foto: Arquivo Pessoal.

Sandra Ramalho é professora da UDESC – Florianópolis, e concedeu esse depoimento à Cristiano Goldschmidt no dia 14 de setembro de 2012.

Em 1981 larguei tudo o que fazia em Florianópolis e mudei-me para Porto Alegre, acompanhando meu marido, que assumia uma direção no BRDE (Banco Regional do Desenvolvimento). Tinha dois filhos pequenos, de um e quatro anos, mas o ócio intelectual me incomodava. Conhecia a Olga de seus livros, uma vez que saída de uma graduação polivalente em 1976, as escolas me exigiam atuação também polivalente. Daí o fato de interessar-me pelos livros da Olga, embora tivesse licenciatura em Artes Visuais, então chamadas Plásticas. Aliás, era só um livro da Olga que eu conhecia: Teatro na Sala de Aula. Em Porto Alegre, num jantar na casa do Professor Dante de Laytano, amigo da minha família, comentei sobre esse livro, sobre a Olga, e disse que gostaria de conhecê-la. O Dr. Dante, como o chamávamos, disse que a conhecia, bem como ao Carlos, seu marido, e que tinha certeza que ela teria muito prazer em me conhecer. Então, consegui com ele seu telefone e marquei com a Olga um encontro na sala dos professores do Colégio de Aplicação da UFRGS. Foi engraçado, porque não nos conhecíamos, e ela, certamente, esperava por uma esposa de diretor de banco com outra aparência. Mãe de crianças pequenas, eu, ainda jovem, vestia um jogging azul claro e tênis; meus cabelos longos estavam presos num rabo. Logo que cheguei, ela me cumprimentou informalmente, inclusive com um leve abano. Desconfiei que fosse ela, mas como me ignorou, fiquei quieta esperando. O tempo passava, e foi aí que a ouvi perguntando para outro professor, que como ela, estava sentado à mesa, concentrado no seu trabalho: – Pato grasna? – Como? Perguntou o professor, incrédulo no que ouvia. – Pato grasna? repetiu ela.  Sim, porque cachorro late, gato mia. E o que faz o pato? Grasna? Tive certeza que era ela. Ali começou uma amizade que durou muitos anos, principalmente os seis anos que morei em Porto Alegre, até 1986. Depois disso, apenas nos telefonávamos. Naquele período, Olga acolheu-me como uma colega, amiga. Eu frequentava quase diariamente seu sótão-biblioteca, dominado pelo “grande pijama”, que era um armário velho que ela mandara revestir com um tecido listrado. Às 17 horas, religiosamente, Carlos vinha, da outra biblioteca, a sua, que ficava no fundo do quintal da casa branca de janelas azuis (na Rua Coronel Bordini). Nós descíamos do sótão e então tomávamos chá juntos, os três. Sempre num clima muito amistoso, Carlos, que era um gentleman, tentava controlar, como se fosse um pai, as peraltices de Olga, que realmente muitas vezes eram dignas de uma criança levada que precisava    de alguém para cuidar. Mais de uma vez ela me disse: parece que tu tens 70 e poucos anos e eu, 30 e poucos (era o inverso). Meus filhos a chamavam de Vó Olga: era uma vó divertida, brincalhona. Fomos juntos mais de uma vez a Gramado, onde ela tinha uma simpática casinha de madeira. Mais tarde, ao passar por lá, sequer consegui identificar o local. Fumava, e em festas, tomava uísque. No primeiro jantar na minha casa, ofereci-lhe um Martini. Ela disse que era bebida de mulher, e que aceitava um uísque. E quando lhe perguntava se era feminista, ela dizia que não era feminista, mas “homista”: adorava que homens lhe abrissem a porta, lhe puxassem a cadeira e até que lhe pagassem a conta. Para mim, todos esses anos de convívio funcionaram como um curso, muito especial e único. E devo a Olga também o fato de ter entrado na vida acadêmica: como egressa de artes visuais, achava que teria que fazer mestrado e doutorado nesta área específica; a única pós-graduação na época era na USP, com a Ana Mae (Barbosa), com quem eu tinha falado, mas ela já tinha orientandos previstos até se aposentar. A Olga me esclareceu que eu poderia fazer o mestrado em Educação, na UFRGS, que ele era muito bem conceituado, e na mesma hora (“vejo” seu dedo indicador um pouco afetado pelo que devia ser um reumatismo inconfesso girando o disco do telefone, ato que se chamava “discar”) ligou para o Programa de Pós-graduação e me passou as coordenadas: logo abririam as inscrições. Dali a dois anos eu era mestre em Educação pela UFRGS. Devo a ela também ter conhecido muitas pessoas: Paulo Autran, Fernanda Montenegro e Fernando Torres, Edson Celulari, Ana Mae Barbosa, Analice Dutra Pillar, Dona Mafalda Veríssimo, Luiz Fernando e Lúcia. Uma vez fiz um chá, e estavam presentes Olga (veja que eu não a tratava de senhora, porque ela não permitia, embora a diferença de idade), Dona Mafalda, minha orientadora Maria Folberg, Tereza de Laytano e Dona Isolde Paes, viúva de outro antigo amigo da minha família. Brincaram que as idades somadas só não davam um século porque eu não contribuía. E ela contava várias coisas dessa grande amizade com os Veríssimo; inclusive uma situação na qual, não sei se em Paris, onde Carlos foi correspondente do Correio do Povo, ou já na volta, em POA, moraram juntos. E Carlos, sempre muito cerimonioso – ao contrário de Olga – chegava na sala e comunicava à Olga que iria ao banheiro, como um modo de comunicar a todos. Ela se divertia contando esse e outros “causos”. Aqui em casa até hoje brincamos comunicando um ao outro a ida ao banheiro; meu marido então não diz meu nome, mas o dela: “Olga, vou ao banheiro”. É mais um modo de mantê-la viva em nossa memória, com suas brincadeiras, seu modo alegre e inteligente de ser, pois as ironias eram sempre sofisticadas. Vou apenas acrescentar algumas coisas concretas que fizemos juntas: – Ela me ensinou seu modelo para organizar atividades dramáticas, com os objetivos e tudo, e então me deu a tarefa de ler um dos livros do Stanislavski e colocar todas as proposições dele no modelo dela. Lembro-me da primeira, que foi a mais difícil de fazer e envolvia um broche e uma cadeira sob um facho de luz num palco escuro; infelizmente, acho que isto nunca foi publicado. – Os dois títulos que ela publicou na Editora Scipioni foram montados a partir de inúmeros rabiscos, pedacinhos de papel manuscritos, aulas que ela ia inventando, pois tinha uma incrível capacidade para criar.  Muitos papéis que ela nunca organizava, mas como eu estava disponível, fui organizando tudo, passando a limpo. E o resultado foram dois livros, lembro bem o título de um, “Um caminho do teatro na escola“, porque ela queria que fosse “O caminho…” e eu consegui convencê-la de que não era o único, mas um dos, que “Um caminho…” seria mais adequado. – O livro “Vamos alfabetizar com jogos dramáticos?“, publicamos em co-autoria. Aquelas atividades foram criadas ou adaptadas por nós para serem executadas em um projeto de pesquisa, que foi encaminhado à UFRGS; mas não recebeu recursos. Olga ficou chateada e desistiu de fazê-lo. Surgiu então a oportunidade de publicarmos pela Editora Quarup, na coleção Alfabetização. Ela me pediu para aplicar os exercícios aqui em Florianópolis, a fim de fotografá-los para ilustrar os jogos para alfabetização. E assim foi feito. Hoje o livro está esgotado, mas ainda é disputado nos sebos.    Particularmente fiquei um pouco chateada, pois eu havia escrito toda uma apresentação explicando que não era um livro de receitas, mostrando as fontes teóricas, mas essa parte foi cortada. Prevaleceu o livro de receitas, que depõe um pouco contra nós duas. Sobre a relação teatro-educação, pelo que acompanho da vida acadêmica de meus colegas de Artes Cênicas, Teatro e Dança aqui da UDESC, percebo que há uma grande produção e muito zelo para com essa área. Há também festivais, encontros, congressos. Assim, o trabalho que Olga iniciou no Rio Grande do Sul continua. O importante é, ao analisarmos as atuações, levarmos em conta a relação de cada personalidade com seu respectivo momento histórico, seu contexto, bem como as condições que se ofertavam nesse contexto. Não podemos comparar o contexto da Olga com o atual, nem restringindo ao Sul, ou ao Rio Grande do Sul. Olga foi uma autodidata no que toca ao teatro. Sempre fazia questão de esclarecer que era uma professora alfabetizadora, e que lançou mão das atividades dramáticas, como ela as chamava, para motivar seus alunos. E os resultados foram excelentes, o que a levou a continuar estudando e praticando essas atividades. Isto não é demérito, ao contrário,  daí o fato de ser tão surpreendente sua trajetória. Foi uma pioneira e, como tal, garantiu espaços políticos e profissionais para todos nós, que atuamos nas áreas de artes. Isto porque, mesmo depois da Lei 5692/71, o ensino obrigatório de arte foi várias vezes ameaçado. Além da Ana Mae  Barbosa, grande batalhadora e maior defensora desses espaços no nosso país, o pioneirismo de Olga foi referência fundamental para a credibilidade desse ensino e dessa atuação. Sua ausência ainda é muito sentida pelos amigos e por muitos profissionais da educação, e se eu a encontrasse hoje, perguntaria se é apenas mais um jogo dramático, “A morte de Olga”; ou caso ela me garantisse que é verdade, brigaria por ela ter se deixado morrer. E, fora de brincadeira, agradeceria pelo que me ensinou, pela alegria do convívio, por ter me aberto os olhos para tantas coisas. Sou muito grata a ela. Esse trabalho de resgatar sua história, sua trajetória, contribui para manter a Olga viva, pois morte não tem a ver com ela. Ela permanece, tenho certeza, e outros depoimentos devem apontar isso também. Proibida a reprodução deste texto em parte ou no todo, em qualquer mídia, sem  prévia autorização. Para maiores informações entrar em contato com c_lavich@yahoo.com.br

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