Entrevista com Marcos Breda para a Biografia da Olga Reverbel.

Marcos Breda. Arquivo pessoal.

Christian: Breda, qual a tua lembrança mais remota da Olga Reverbel?

Marcos Breda: A lembrança mais remota que eu tenho é do início dos anos 80, quando eu estava começando a trabalhar aqui e muitos colegas me falavam do trabalho dela, especialmente colegas de uma geração anterior à minha. A Suzana Saldanha falava dela. Todo mundo que estava começando a fazer teatro naquela época tinha alguns referenciais importantes, e a Olga Reverbel era um deles. Eu lembro a primeira vez que a vi. Foi ali perto do Instituo de Educação General Flores da Cunha, porque eu fazia faculdade de Engenharia aqui no campus do centro. Lembro-me de ter cruzado com ela, e eu vi aquela senhora passando – ah, essa é a professora Olga Reverbel – mas eu nunca fiz aula com ela. Só esse referencial de que todo mundo falava sobre a importância dela, dos livros que ela publicou sobre teatro e educação, do marido dela, o Carlos. Mas principalmente dos livros dela, dos exercícios que ela propunha. Eu me lembro de ter feito cursos mais de uma vez que utilizavam esses exercícios, como aluno. Mais tarde, como professor, eu utilizei muitos dos exercícios sugeridos por ela.

Christian: Você concluiu o curso de Engenharia?

Breda: Não. Foi uma coisa louca, porque eu fiz vestibular pra Engenharia Mecânica no início de 78, e fiz dois anos, 78 e 79. No início de 80 mudei pra Engenharia de Minas, fiz mais dois anos de Engenharia de Minas, 80 e 81. No início de 82 eu larguei Engenharia. Passei um semestre parado. Nessa época eu já estava fazendo teatro, já estava fazendo uma peça. Foi minha primeira peça profissional. Eu estreei em março de 82 numa peça chamada Marat-Sade, no Teatro Renascença, com direção do Néstor Monastério. E logo depois da estreia dessa peça, em março/abril, decidi pelo abandono da Engenharia. Passei um semestre parado. No segundo semestre eu comecei a fazer Tradutor Intérprete na ufrgs, fiz mais um ano,  e aí sim fiz a minha última mudança. Mudei pra letras, português-inglês e literatura, e me formei no final de 86. Eu entrei em 83 e já tinha feito várias disciplinas, porque eu fiz cinco anos de inglês aqui no Cultural da Riachuelo. Eu era professor formado em inglês em 79, e acabou que eu fiz o curso de letras com quase um ano a menos do que o normal. Mas aí em 86 pintou um filme pra eu fazer em São Paulo, faltando quatro cadeiras.

Christian: Você não tem formação acadêmica em Artes Cênicas, então?

Breda: Não. Eu tenho só pós-graduação em Artes Cênicas. A minha formação foi em letras.  Faltavam quatro disciplinas pra eu me formar na metade de 86. No inicio de 87 eu passei a fazer as quatro disciplinas que faltavam por correspondência, uma em cada semestre.  Em 88 eu fiz mais uma disciplina no primeiro semestre, que era práticas de ensino. Nessa época eu já estava fazendo novela, e a práticas de ensino era pra dar aula em uma escola na periferia aqui de Porto Alegre, e era uma coisa impossível, porque nessa época eu estava fazendo uma novela chamada “Que Rei sou Eu?”, que era um imenso sucesso, e era impraticável eu dar aula um semestre, porque ninguém prestava atenção no que eu falava. Era só da novela que falavam e queriam saber. O pessoal da faculdade entendeu a impossibilidade. Então eu fiz, na verdade, um estágio. Fiquei uma semana dando aula. E era muito difícil porque eu falava em proparoxítona e o pessoal queria saber da novela, e mesmo assim eu me formei. Em 94 eu fui fazer minha formação em pós-graduação. Voltei pra universidade, aí sim pra fazer teatro, na UniRio – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Fiz mestrado em Teatro lá de 94 a 98. Defendi minha tese de mestrado sobre a utilização da capoeira na preparação dos atores. Em 2000 ganhei uma bolsa de estudos e fui morar em Londres. Fiquei um ano fazendo um curso com Philippe Gaulier, que é discípulo do Jacques Lecoq. Depois voltei pro Rio de Janeiro e continuo trabalhando lá até hoje, morando no Rio. Tenho família no Rio. E já completei 51 anos. Morei 25 anos no em Porto Alegre e 26 anos fora de Porto Alegre.

Christian: Voltando então um pouquinho à Olga. Você estava comentando sobre os livros dela. A gente sabe que ela tem vários livros publicados. De que forma você se utilizava desses livros e como isso foi importante pro teu crescimento profissional?

Breda: De muitas maneiras. Primeiro porque eu fiz vários cursos que utilizavam exercícios propostos e criados por ela. Depois, mais tarde, com algum tempo de carreira já, eu passei a dar aulas e também lancei mão dos exercícios que esses livros propunham, porque eram realmente exercícios inteligentes, que trabalhavam com a inteligência dos alunos. Eu me sentia instigado por aqueles exercícios quando os fazia, como aluno, e depois como professor. Mais de uma vez eu pude reafirmar a utilidade deles, a eficiência deles, porque a Olga era mais que uma professora, ela era uma pensadora sobre teatro, sobre a arte do ator, sobre a capacidade de amadurecimento e de transformação que a arte podia proporcionar, por isso ela trabalhava com arte e educação, e foi uma das pioneiras nessa vertente. Além disso, todos os referenciais, as pessoas, colegas que me falavam do trabalho dela. Gente que já foi aluno dela. Além da Suzana Saldanha, Caio Fernando Abreu me falou muito dela. Caio Fernando Abreu foi um grande amigo meu. A gente dividiu apartamento quando fui morar em São Paulo, e depois eu ainda fiz vários trabalhos com a obra dele. Eu fiz duas peças de teatro dele, A Maldição do Vale Negro e O Homem e a Mancha. “O Vale Negro” é uma paródia, um melodrama que ele escreveu a quatro mãos com o Luís Arthur Nunes, e “O Homem e a Mancha” é um monólogo. Foi a última peça que ele escreveu pro teatro antes de falecer. Uma livre adaptação do Dom Quixote, de Cervantes. E no cinema eu fiz um curta-metragem chamado Sargento Garcia, que era baseado num conto dele, do livro Morangos Mofados. Então eu trabalhei com a obra do Caio em mais de uma ocasião. Ele que era, entre outras tantas coisas, também um ex-aluno da Olga, um admirador dela, uma pessoa de quem ele frequentemente falava.

Christian: Nós temos toda uma geração de grandes artistas que passou pelas mãos da Olga. Se não teve formação, teve incentivo da parte dela, foi influenciado por ela. E a Olga, enquanto pedagoga e professora de teatro, foi precursora no Rio Grande do Sul, e teve como colega a Maria Clara Machado, no Rio de Janeiro. Como você vê a Pedagogia Teatral hoje, na ausência de ambas? Existe uma lacuna ou tem uma continuidade?

Breda: Existe, eu acho, uma facilidade. O próprio Zé Adão, em Porto Alegre. Claro que não é uma reprodução do jeito que ela tinha de ensinar, e eu não posso falar porque nunca tive aula com ela, mas eu sei do muito que me diziam. Existem muitos bons professores que de uma maneira ou de outra beberam na obra dela, tem as referências dela. O Zé Adão é o exemplo de um cara que bebeu na fonte dela e hoje é uma das principais referências de ensino teatral para os nossos atores aqui em Porto Alegre.  Antes com o TEPA (Teatro Escola Porto Alegre), que ele tinha com a Daniela Carmona, outra profissional que eu conheço e que eu respeito. A Daniela Carmona, inclusive, fez o curso do Gaulier, em Londres. E o TEPA continua através dela. O Zé Adão agora com a Casa de Teatro de Porto Alegre. E no Rio de Janeiro existem muitas pessoas, além das universidades, a UFRJ, a UNIRIO. Existem vários cursos, como o próprio Tablado da Maria Clara Machado, a CAL (Casa de Artes Laranjeiras), e existem vários professores lá que certamente seguem os ensinamentos da Mestra, que era uma parceira da Olga Reverbel. Elas tinham uma identificação muito grande. A própria Rangel Viana que é uma contemporânea delas, tem a escola de dança que de uma maneira ou de outra dialoga com outras cearas.  No meio teatral é muito difícil você delimitar onde termina a influência de uma e onde começa a de outra, até porque, a formação do ator brasileiro é uma formação essencialmente múltipla. Existe em São Paulo a USP, que formou gerações de atores. Aqui em Porto Alegre mesmo, o DAD (Departamento de Arte Dramática da UFRGS). Existem muitas vertentes, e a formação da gente é muito diversificada, mesmo que por vezes carente de estrutura para que você possa conceber sinergia e organicidade a todas essas coisas. Eu, na verdade, uma das razões pelas quais entrei na faculdade de teatro pra fazer mestrado, era pra tentar de alguma maneira dar uma organicidade maior à minha formação, que foi tão diversificada, com tantos professores diferentes, mas eu não fiz graduação em Artes Cênicas.

Christian: E você sente falta ou não?

Breda: Eu sinto. Eu sinto, porque a minha formação foi uma formação. Eu vou te dar um exemplo: o meu mecânico. Eu ando de kart. Eu sou piloto de kart. É uma fissura minha, eu sou piloto amador evidentemente.  Eu não tenho nenhuma pretensão, mas eu gosto. E o meu mecânico é um cara excelente, mas que nunca fez uma faculdade de Engenharia. Ele aprendeu mexendo. A minha formação teatral, pelo menos nos primeiros 10 anos, foi uma formação essencialmente prática, empírica. Eu aprendia. A minha primeira peça foi Marat-Sade (eu fazia praticamente figuração), e tive que estudar sobre a Revolução Francesa, sobre o Peter Weiss, o autor. Aí você vai passar para outro trabalho, vai fazer o Shakespeare, aí você estuda a obra do Shakespeare. Vai fazer um Nelson Rodrigues, vai fazer um Tchekov, um Ibsem. Em cada trabalho que você vai fazendo, você mergulha no universo daquele autor. Mergulha nas técnicas de interpretação que se fazem necessárias para abordar aquele universo. Eu fiz Arlequim, Servidor de Dois Patrões, que eu trouxe aqui pra Porto Alegre e estreou no Theatro São Pedro. Uma peça da Comédia Del’arte, das máscaras, e você não pode se aproximar de um universo desses sem uma preparação. Estudei máscaras durante muito tempo. Em Londres também estudei esse máscaras. Ao mergulhar num universo desses, você é obrigado a beber de fontes pra se aparelhar, pra encarar um desafio de entrar numa dessas especificidades do teatro, numa dessas áreas do conhecimento teatral, que exigem uma interpretação absolutamente codificada, de acordo com aquele universo. Assim como você, entrando no melodrama, tem um tipo de interpretação, um tipo de registro, um universo de diferenciais, e que você tem que estudar profundamente pra poder fazer aquilo. Farsa, você vai entrar na tragédia grega. Então, a sua formação acaba sendo muito ditada pelos trabalhos que pintam pra você fazer. Alguns são projetos pessoais, e esses, você se prepara durante muito tempo. Outros são convites circunstanciais que você acaba aceitando. Quer dizer, a formação dos atores, ela é muito ditada pelas necessidades dos trabalhos dele. Especialmente nos primeiros tempos, em que você, pra sobreviver, aceita quase qualquer trabalho. Ao mesmo tempo você tem que estudar profundamente nas horas vagas, em casa, tem que pegar livros de teatro, ler textos sobre teatro, ler os autores, ler os teóricos. E ao mesmo tempo eu sentia falta de uma organicidade que o estudo, que o ensino acadêmico traz.

Christian: E que essa pós-graduação supriu.

Breda: Parte sim. Parte dessa lacuna com certeza. É muito legal você poder pegar um autor tipo o Nelson Rodrigues e estudar a obra dele inteirinha, da primeira a última peça. Ler peça por peça, discutir isso em aula, fazer um trabalho, escrever uma monografia. Foi muito legal isso. Eu não estou querendo dizer que a universidade seja um caminho imprescindível ou o melhor caminho. Mas é um caminho muito interessante. Pra mim funciona, funcionou. Várias das coisas que eu aprendi de uma maneira estanque, isolada, passaram a ter uma relação sinérgica, uma correlação, uma inter-relação por conta de que você passa a estudar a teoria do teatro, a história do teatro. Você vê que aquele texto que você fez aqui, ali e acolá fazem parte de uma determinada área do teatro, e essas áreas se inter-relacionam com outras tantas áreas.  Aí vem a indumentária, o figurino, a maquiagem, a interpretação, a dramaturgia, e é um barato você ver que as coisas começam a fazer sentido, e as coisas que você aprendeu de uma maneira empírica, de uma maneira prática, elas são profundamente úteis. Eu me lembro de quando fui pra Londres fazer o curso com o Gaulier. Cheguei lá com 40 anos. E a maioria dos alunos tinha 20 anos, vinte e poucos, trinta e poucos. Eu e mais uma inglesa e um alemão éramos os únicos com mais de 40 anos. E o pessoal brincava e chamava a gente de Jurassic Park, porque éramos os três quarentões. Por outro lado, eu cheguei lá com 20 anos de estrada, com vinte e tantas peças nas costas, fora os trabalhos em cinema e televisão, com muita bagagem prática. Então, muitas vezes o que me faltava de conhecimento teórico era amplamente compensado pelo trabalho prático feito ao longo de tantos e tantos anos. Hoje eu estou com 30 anos de estrada, 50 de idade, ou seja, eu faço teatro mais da metade da minha vida.

Christian: Pra finalizar, se você tivesse a oportunidade de encontrar a Olga Reverbel, o que você diria pra ela?

Breda: Diria obrigado pelos exercícios dela que eu fiz e que “roubei” pra fazer nos cursos que eu dei. E pelo aprendizado que tive indiretamente com ela, pela obra dela. Se pudesse hoje dizer alguma coisa, eu diria parabéns e obrigado. Porque uma pessoa que passa uma vida toda construindo uma obra com a importância que ela construiu, com a coerência que ela construiu, merece parabéns, porque foi uma vencedora. Escreveu seu nome na história do teatro de Porto Alegre, no teatro brasileiro. E escreveu de uma maneira positiva, admirável. Uma pessoa que formou gerações de profissionais. Pelo seu caráter de semeadora e irrigadora. Isso é muito dela, essa é a grande função do mestre que semeia, que ensina e que acende no aluno a capacidade dele de crescer e de amar aquilo que faz. Ela transformou aqui o teatro numa coisa maravilhosa. O bom professor é aquele que apresenta as coisas pra você de uma maneira interessante. É aquele que ama, que admira, que quando gosta da coisa fala com entusiasmo. O bom professor nutre uma paixão por aquilo que faz, e transmite isso. E também não basta só paixão, tem que saber transmitir. E a Olga, além de ser apaixonada pelo que fazia, tinha a manha, a didática, a pedagogia. Tinha a capacidade de transmitir aquilo com competência e desenvoltura.

Proibida a reprodução deste texto em parte ou no todo, em qualquer mídia, sem  prévia autorização. Para maiores informações entrar em contato com c_lavich@yahoo.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s