Entrevista com Zé Adão Barbosa para a Biografia de Olga Reverbel.

Zé Adão Barbosa. Arquivo pessoal.

Christian: Zé, pra começar, como, quando e onde você conheceu a Olga Reverbel?

Zé Adão Barbosa: Conheci a Olga faz muitos anos, muitos anos mesmo. Eu fazia uma peça infantil lá no início dos anos 80, e ela foi assistir. Ela gostou muito do meu trabalho. Lembro que fiquei muito impressionado com a figura dela, porque a Olga tinha uma figura muito forte, uma expressão muito forte, marcante. Ela tinha uma voz forte. Eu tinha lá os meus 20 anos, e lembro que ela elogiou o meu trabalho. E quando ela saiu do camarim, eu perguntei:

– quem é essa senhora? Que simpática!

E alguém me disse assim:

– Zé, essa é a Olga Reverbel, uma das maiores professoras de teatro da história de Porto Alegre.

Então, eu conheci a Olga dessa forma. Anos depois eu contei pra ela essa história e ela riu muito, porque eu não sabia quem ela era. Aí ela disse:

– Até hoje as pessoas não sabem quem eu sou.

Nessa peça eu atuava. Porque eu só comecei a dirigir lá por 1985, mais ou menos, no Teatro de Câmara. E nós tivemos então alguns alunos em comum. E alguns alunos que foram alunos dela, mais tarde fizeram aulas comigo. Outros comentaram com ela da minha aproximação com Stanislavsky, como eu gostava desse trabalho da cena, da improvisação, e um dia eu estava conversando com ela em um evento e ela disse:

– Olha, eu estou lá no Teatro de Arena, tu não queres ministrar um curso lá?

E lembro que a proposta era ministrar um curso, e eu aceitei. Eu fiz o curso no Teatro de Arena e foi um sucesso, com uma pequena montagem. E quando esse curso terminou, ela me disse:

– E aí, vamos lá? Vamos fazer outro?

Eu fiquei um bom tempo dando aulas no Teatro de Arena, com ela. Foi um período de muito aprendizado, porque a Olga era uma mulher muito culta. Não só culta. Como ela era amiga de pessoas importantes, de grandes cabeças do meio intelectual, isso contribuiu absolutamente para a minha formação. A Olga era muito amiga da família Veríssimo, que através dela vim a conhecer. Foram muitos papos com a Mafalda naquela sala maravilhosa dos Veríssimo, com Lya Luft, a Dona Eva Sopher. Lembro que estávamos uma vez lá, eu e a Ilana Kaplan, e a Mafalda contou-nos uma história com a Clarice Lispector nos anos 40, em Paris. Eu lembro que aquilo me surpreendeu tanto, com a modernidade delas, e ali, naquele momento, comecei a ver a Mafalda de uma forma diferente. Eu acho que elas eram um grupo de mulheres extremamente fortes.

Christian: A Olga foi precursora do Teatro na Educação no RS e uma das primeiras no Brasil. A gente percebe, por exemplo, que até bem pouco tempo atrás você estava à frente do TEPA (Teatro Escola Porto Alegre) junto com a Daniela Carmona. E o TEPA foi um divisor de águas em termos de escola de teatro no cenário porto-alegrense. Qual a diferença do TEPA com a Oficina de Teatro Olga Reverbel, que foi precursora? O que diferencia uma instituição da outra?

Zé Adão: Talvez a extensão do trabalho. O TEPA era um curso de um ano, com aulas diárias, três professores. Também o fato de o TEPA ter o reconhecimento do sindicato, por exemplo. Os alunos do curso de formação procuravam esse curso muito em função do certificado do SATED, da profissionalização do SATED. Isso, lógico, influenciou muito. Agora, vou te dizer um negócio muito sério. Eu acho que no ensino não é uma instituição que importa, é o conteúdo, é a seriedade com que tu encaras a função, o ofício de formar atores, porque tu não forma atores simplesmente, tu forma artistas.

Christian: (chega alguém e interrompe)… Falávamos da questão da profissionalização que o TEPA proporcionava aos seus alunos, com o registro profissional.

Zé Adão: Pra tu te sindicalizar, tu precisas de certo número de trabalhos. O DAD (Departamento de Arte Dramática da UFRGS), que é a nossa academia, obviamente, tu te formas no DAD, tu é diplomado. Não tem como o sindicato questionar. Agora, em nível de curso, o TEPA foi o primeiro a proporcionar isso para os alunos, porque economiza um longo tempo de trabalho, ou seja, ele já sai dali semiprofissionalizado, já tem condições, por exemplo, de ir pro Rio de Janeiro e fazer um trabalho de televisão, ou de cinema, que vai exigir dele esta profissionalização. No Rio de Janeiro ou São Paulo tu nem tentas fazer uma coisa se tu não tiveres a carteira do SATED. No TEPA nós conseguíamos criar um currículo muito contundente, bastante forte. Era um curso que tinha um professor de corpo, um professor de interpretação e um professor de teoria. E nós nos valíamos da bibliografia da Olga. Eu tenho os livros dela e outros livros interessantes que ela me deu. Uma vez ela me deu um livro e disse que era uma raridade, e era “A ceia dos cardeais”, de Júlio Dantas. Ela me disse que tava fazendo uma limpeza e achou que eu ia gostar de ler esse livro, que era uma peça muito antiga. Na época do Teatro de Arena ela também me deu muitos presentes. Pra te falar bem a verdade, quando comecei a dar aulas, os livros da Olga foram as primeiras referências que eu tive. A Olga foi uma referência e continua sendo, e acho que ela sabia disso. A gente ficou muito amigos em função disso. Teve muitos exercícios do livro dela que eu comentava, e ela dizia que tudo mudava. Às vezes um exercício muda totalmente de foco, depende do aluno, dependendo do clima em sala de aula. Ela me dizia que às vezes, na prática, ela mudava tudo. Quando ela via que eles (os alunos) não estavam gostando daquilo, ela dizia: vamos improvisar!

Christian: Há muito tempo você é uma referência, e teve a Olga como referência. Essa nova geração sabe quem é ela, quem foi Olga Reverbel?

Zé Adão: Não! Quase ninguém. Assim como não sabem quem é Luís Arthur Nunes, Irene Brietzke. Não sabem quem é Maria Helena Lopes. Muitos ainda acham que Carlos Carvalho é apenas o nome de um teatro (risos). Imagina só, nunca devem ter lido uma peça, talvez os alunos do DAD sim, porque pelo próprio ambiente da academia eles ouvem falar. Por exemplo, eu estou trazendo pra Casa de Teatro a Graça Nunes, que durante 28 anos foi a professora mais cultuada do DAD. Se tu perguntar pra qualquer ex-aluno do DAD quem foi a professora mais maravilhosa, vão dizer: Graça Nunes! Então, nós estamos trazendo ela aqui pra Casa de Teatro, e grande parte dos que vão ser alunos dela nem sabem quem é ela. Primeiro, nós não temos uma documentação. Eu estou começando um projeto de um documentário de 40 anos do Teatro Gaúcho. Aí sim as pessoas vão saber quem é Olga Reverbel, como vão entender a importância dela, porque tem muitos profissionais hoje em dia, grandes atores e grandes atrizes que começaram com a Olga.

Christian: E qual a importância dela?

Zé Adão: Como professora de teatro ela criou atores e atrizes consagrados. Mas eu acho também que a grande importância da Olga é aquela eterna modernidade. A Olga era aquela mulher extremamente participativa. Nos últimos tempos ela viveu fora, mas enquanto ela pôde, ela foi extremamente participativa. Pra tu teres uma ideia, quando eu montei Romeu e Julieta, queria montar com um elenco adolescente. Isso ainda lá no Teatro de Arena, tanto que foi lá a audição. Eu disse pra Olga que tava difícil encontrar um casal que tinha essa paixão. E ela me disse assim:

– Faz uma audição! Isso vai dar mais pompa à peça. Vai ser fácil. Convida uma banca, e eu faço parte da banca.

Aí ficou ela, Vera Karan, Débora Finocchiaro e não lembro quem mais. Foi uma sugestão dela. E no dia da audição tinha uns 60 garotos e garotas no Teatro de Arena. Muitos vestidos de Romeu e Julieta. E ela dizia:

– Isso aqui é Business. Isso aqui é Nova Iorque! Quando é que tu viu isso que se está fazendo?

E esses dias a Fernanda Carvalho Leite veio me dizer:

– Zé, eu estava lá naquela tarde. Eu fiz teste pro Romeu e Julieta!

E a contribuição que a Olga dava era em todos os sentidos. Mesmo que fosse naquelas noites engraçadíssimas, em que elas riam e lembravam-se daquele passado maravilhoso delas, onde elas conviviam com as grandes cabeças que vinham a Porto Alegre. Todos iam pra casa da Olga. Ou seja, era uma efervescência cultural muito grande. A Olga era uma pessoa com a qual tu tomavas um café, e naquele café de 15 minutos tinham três histórias. E tu ficavas assim:

– Não é possível Olga!

E ela:

– É possível sim!

Christian: Obviamente a Olga não era unanimidade. Você lembra de algum desafeto, ou até mesmo de alguma história peculiar, pitoresca ou engraçada?

Zé Adão: Claro que a Olga falava coisas absurdas. Elas eram mulheres extremamente modernas. Nada me chocava. Agora, isso de falarem mal, é da cidade né! Se tu pegar o Luciano Alabarse, tem gente que o ama e agradece a ele por ter criado o Porto Alegre em Cena. Tem gente que o odeia e quer que ele morra pra acabar o Porto Alegre em Cena. Eu já passei por isso algumas vezes. Mas a Olga era muito franca. Uma vez ela foi ver uma comédia que eu fiz com o Renato Campão. E lembro que no final ela foi embora. Ela sempre me cumprimentava. Mas dessa vez, no final, ela foi embora. Depois, eu a encontrei e perguntei:

– E aí Olga, o que é que tu achou?

E ela me disse assim:

– Não perde teu tempo com isso! Não perde esse teu talento, não gasta o teu talento! Aquilo não tinha dramaturgia. Aquilo não tinha ação nenhuma. Não tinha consciência política! Não queria dizer nada, nada, nada.

Ela me elogiava tanto, me tratava tão bem sempre. E lembro que essa foi a primeira vez que ela veio com uma crítica dura. Eu fiquei meio constrangido, porque foi na frente de outras pessoas. Mas passou o tempo e eu pensei: Bota na balança. Ela me passou tantas coisas importantes, que é óbvio que ela tinha razão! Ela não me diria aquilo se não fosse verdade. É que eu fui, em Porto Alegre, um dos primeiros criadores de besteiróis (que começou em São Paulo). Os primeiros besteiróis que tiveram em Porto Alegre foram comigo e o Campão. A gente fazia muito sucesso, e a gente achava que era muito moderno. E era. Porque não tinha nem ensaio, a gente se apoderava de uma coisa, subia no palco e fazia horrores, com os espaços lotados. E as pessoas choravam de rir. Era uma bobagem. Eu e o Renato vestidos de mulher. Aquela coisa toda. Mas depois eu entendi a Olga. Eu entendi. Eu entendo o Luciano Alabarse, por exemplo. Ele diz que não gosta de comédia. E eu entendo. Tu tens direito. De repente a tua alma é muito mais chorosa do que risonha. E é normal. Mas tudo isso pra dizer que eu entendi a Olga. E o Luciano tem pavor de comédia. Ele montou algumas, mas não acha graça em nada. Ele adora o drama. No máximo o melodrama.

Christian: Como foi a convivência com a Olga depois do período do Teatro de Arena? Ela sai do Teatro? Você saiu? Como foi isso?

Zé Adão: Encontramo-nos algumas vezes na casa dos Veríssimo. Outras em eventos, em espetáculos. Depois eu lembro que ela sumiu. Mas ela fez um filme muito bonito com a Aracy Esteves, só elas duas.

Christian: Um curta?

Zé Adão: Um curta, eu acho.

Christian: Então não foi com a Aracy, foi com a Carmem silva.

Zé Adão: Exato! E ela está maravilhosa. E depois do Arena eu também fiz uma exposição de fotos. Eu dirigi uma exposição de fotos da Irene Santos, em que a Irene retratava. Aliás, tem uma foto linda da Olga. Eu produzi atrizes com personagens clássicos. E a Olga fez A Casa de Bernarda Alba. Eu que produzi e maquiei a Olga.

Christian: Você tem essa foto?

Zé Adão: A Irene Santos tem. Então, na ocasião eu liguei pra Olga e disse assim:

– Olga, eu quero fazer uma foto contigo.

E ela não quis – Zé Adão imita a negativa de Olga ao telefone e continua:

– O que é criatura? Tu é tão danada! Sandra Dani vai fazer, Aracy vai fazer.

E a Olga então quis saber:

– O que que é?

Aí expliquei o projeto, e ela:

– Mas eu escolho o personagem.

Digo assim:

– Claro!

Passaram-se uns dias e mais perto de fazer a foto liguei de novo, e ela me disse:

– Já pensei! Eu quero fazer A Casa de Bernarda Alba!

Eu digo:

– Tá, então faz A Casa de Bernarda Alba.

Depois dessa foto ainda nos vimos algumas vezes, mas não sei exatamente o momento de nosso último encontro.

Christian: Se tivesse a chance de um reencontro, o que perguntarias a ela?

Zé Adão: Eu perguntaria onde é que tu andas criatura? (muitos risos). E se tá melhor lá do que aqui. Na verdade eu acho que ela saberia reconhecer o momento que a gente tá vivendo. Ela já sabia. Veja bem Christian, eu não fiz academia. Eu sou um autodidata. E pra ser profissionalmente reconhecido por uma mulher com a competência da Olga, que se dava com a nata, com a crème de la crème da classe artística, pra ser reconhecido por ela como um profissional, já foi o melhor do nosso encontro. Depois, o resto é confete.  Um dia fiquei sabendo da morte dela. E ela foi uma das pessoas que senti muito de não ter visto mais. Porque tem uma coisa nessas pessoas que viveram uma época extremamente forte na cultura, em que os artistas em Porto Alegre não eram formados pensando em fazer novela da Globo. Tu fazias teatro porque tu querias ser artista. Tu querias revolucionar o mundo. Por isso que eu acho todas as pessoas que te citei, extremamente revolucionárias. Não é à toa que a Dona Eva monta todo um teatro sozinha. E agora monta um complexo cultural sozinha. São pessoas que tem ideologia, palavra totalmente fora do dicionário desses novos artistas que se criam hoje em dia. Eu sou ator pra quê? Se tu perguntar pra eles, tu podes ter certeza que a grande maioria vai te dizer: eu quero ser ator pra ser famoso, pra ganhar dinheiro e pra dar autógrafos. Tu tá pensando por acaso que querem se tornar atores pra montar peças revolucionárias? Pra denunciar alguma coisa?

Christian: E a partir de quando você percebeu que houve essa mudança de paradigma, de pensamento, de compreensão do que é ser artista?

Zé Adão: Foi no final dos anos 80. Percebi que foi exatamente no momento em que Porto Alegre deixou de ser um polo cultural e passou a ser um centro cultural. Então alguns atores abandonaram Porto Alegre e viraram celebridades. Isso tinha parado na época da Lilian Lemmertz. Depois ninguém mais. Aí foi o Marcos Breda, O Zé de Abreu, que também era considerado daqui. A Ilana Kaplan fez o Buffet Glória, foi um sucesso e foi embora daqui. E todos foram embora. Pouquíssimos ficaram aqui.

Christian: Recentemente o Juliano Barros, que foi teu aluno também e estava se dando bem aqui…

Zé Adão: O que o Juliano tá fazendo?

Christian: O Juliano está trabalhando com teatro no Rio[1].

Zé Adão: Meu amigo, tem muitas crias minhas que tão lá trabalhando com teatro. Mas na verdade, quando tu vais embora pro eixo Rio-São Paulo, tu tens que ter um objetivo claro. Se for pra fazer teatro, tu foi pro lugar errado, porque o teatro carioca é péssimo. Então, é mentira que tu foi lá pra fazer teatro. Tu vais com a esperança de fazer tevê. Se tu queres fazer teatro, tu vais pra São Paulo, onde tu podes trabalhar com o CPT (Centro de Pesquisa Teatral), com o Zé Celso (Martinez). Agora, no Rio de Janeiro, que teatro tem no Rio de Janeiro? Um teatro comercial, um teatro alegórico. Um teatro que eu chamo de praia. Claro que tem raras e honrosas exceções, como o Teatro Poeira, da Marieta Severo e da Andréa Beltrão. Mas é que é suspeito tu ir pro Rio, né? Fazer teatro no Rio?

Christian: No fundo, o objetivo é novela mesmo?

Zé Adão: E acabam fazendo, acabam fazendo às vezes ponta em novelas.

Christian: Pra finalizar, me fala um pouco mais sobre o teu projeto dos 40 anos do Teatro Gaúcho.

Zé Adão: É um documentário. Já ganhamos a LIC e agora vamos começar o processo de captação. E há uma coisa que me preocupa. Eu tenho 32 anos de carreira e há 22 anos eu dou aula de teatro. Desde então eu vejo o absurdo. Chega a ser dolorosa a falta de informação desta nova geração de artistas sobre quem formou o teatro gaúcho, sobre quem sedimentou o teatro gaúcho. Mas eu tô te falando em vergonha, vergonha mesmo. De as pessoas não saberem quem é Maria Helena Lopes, que é nossa maior diretora; ou Irene Brietzke. Eles não sabem, não tem ideia. Eles acham que o teatro gaúcho começou nos anos 90. Lá pra trás eles não sabem mais nada. É assustador!

Christian: Tu vês isso como uma falta de interesse ou tu achas que falta bibliografia?

Zé Adão: Mas é óbvio que é uma falta de interesse. Por isso mesmo nós temos que tomar iniciativas de levar até eles essa informação, no caso, pelo meio audiovisual, que é o meio mais fácil.

Proibida a reprodução deste texto em parte ou no todo, em qualquer mídia, sem  prévia autorização. Para maiores informações entrar em contato com c_lavich@yahoo.com.br


[1] Quando a entrevista foi feita, Juliano Barros estava no RJ. Atualmente voltou a residir e atuar em Porto Alegre.

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