Análise do Texto Mont Blanc, uma caneta Trés Chic[1]

Análise do Texto Mont Blanc, uma caneta Trés Chic[1]

Christian Goldschmidt, Diego Machado, Jaqueline Lunkes, Marcelo Rios,

Mateus Dal Ponte, Nivaldo Rosa e Rodrigo Lorenzon[2]

 O grupo reuniu-se algumas vezes para ler o texto e discuti-lo, apontando alguns aspectos considerados importantes e relevantes para sua compreensão através da semiótica. A primeira conclusão a que chegamos foi a de que não conseguiríamos atingir nosso objetivo sem a oportunidade de fazer com que todos tivessem a chance de conhecer de perto e apreciar o objeto em análise e discussão.

Após assistirmos alguns vídeos sobre as Canetas Mont Blanc e sobre eventos de lançamentos de diferentes modelos da caneta em algumas capitais brasileiras, consideramos importante tentar reproduzir em aula a experiência obtida nos eventos. Buscou-se, então, criar um ambiente similar ao proporcionado aos clientes e potenciais compradores/consumidores/colecionadores da marca. Desta forma, dentro de nossas possibilidades, organizamos um coquetel “demonstrativo” a fim de criar o ambiente desejado.

A sala de aula foi reorganizada por completo. A mesa do professor, de madeira e bem aristocrática, serviu de base para o coquetel, e as cadeiras foram reordenadas ao ponto de formar uma plateia em fileiras. Todos os detalhes foram planejados, sempre buscando atingir o conceito de exclusividade do produto em questão no texto. Comidas, bebidas, e até o modo de dispor os elementos na mesa.

Embora tivéssemos a intenção de reproduzir um cenário de exclusividade e requinte, ao convocar a turma para que entrassem na sala, tentamos ser irônicos com essa exclusividade, pedindo para que quem tivesse mais conhecimento na língua inglesa ficasse nas primeiras fileiras dos assentos.

Como o próprio texto relata se tratar de um produto que não está ao alcance de qualquer pessoa, sendo necessário recursos financeiros de certa monta para adquiri-los, foi sugerido em uma das reuniões do grupo de trabalho, que tentássemos conseguir se não o modelo da caneta Mont Blanc citado no texto[3], pelo menos outro, para que todos pudessem ter a real noção do significado para àqueles que investem quantias vultosas em uma caneta desta marca.

Um dos colegas, conhecendo um colecionador de canetas Mont Blanc, perguntou ao amigo se seria possível um relato de sua experiência como colecionador para o grande grupo e este concordou. Como sugestão do próprio colecionador, este levou alguns objetos da marca para a análise da turma, ao longo da apresentação.

Após falar um pouco sobre sua trajetória profissional e de como iniciou a sua coleção de canetas (entre outros objetos como livros raros), o convidado disponibilizou para a apreciação do grupo três modelos diferentes, falando um pouco sobre cada uma delas.  O texto indica que as canetas Mont Blanc são “destinadas às pessoas que se consideram importantes”. O colecionador explicou que o objetivo de sua coleção é um investimento e acrescentou a informação de que o maior colecionador de canetas Mont Blanc do mundo é brasileiro, um empresário residente no estado de Santa Catarina.

Na oportunidade, os estudantes sentiram a necessidade de apontar algumas informações sobre a marca do produto exposto, buscando um histórico breve para apresentar. O nome desta marca de artigos de luxo, fundada na Alemanha, em 1906, é uma homenagem a montanha mais alta da Europa Ocidental. Pelo fato do texto ser específico sobre um dos produtos, o grupo buscou conhecer todo o corner da marca, identificando-os como relógios, instrumentos para escrita, acessórios em couro, joias, óculos de sol, perfumes, além das edições limitadas das canetas.

Buscou-se também demonstrar alguns conceitos de Luxo, trazendo citações de um trabalho de conclusão de curso sobre consumo de luxo[4]. “A palavra luxo, segundo D’Angelo (2006, p.22) deriva do latim Luxus, ostentação, magnificência, abundância e refinamento, entre outras definições como: qualidade especial, raridade e supérfluo. O autor ainda relaciona luxo com conjugação do prazer de exclusividade” (STEIN, 2010, p.20).

Seguindo estes apontamentos, o grupo optou por trabalhar na apresentação pessoal, ou seja, nas suas vestimentas para a apresentação. Considerou-se que, o grupo estando vestido com roupas sociais, ajudaria a transformar a sala de aula no ambiente aristocrático e exclusivo.

O objetivo desta apresentação, além de uma conversa sobre o artigo em questão, era criar um ambiente de experiência e reflexão. Por tal motivo, o grupo trabalhou de diversas maneiras a questão da escolha, da decisão de compra, trazendo algumas dinâmicas para o final da apresentação.

No coquetel servido aos colegas, foi disponibilizado dois tipos de refrigerante de “cola”, um mais tradicional e outro de uma marca mais barata. Optamos por deixar as bebidas já servidas nos copos, sem identificação de marca, buscando captar a reação dos colegas ao consumir tais produtos. No final da apresentação revelamos a diferença dos itens e muitos colegas reagiram demonstrando que notaram uma diferença, porém todos os copos servidos foram consumidos, mesmo após o revelado.

O texto faz referência à leitura de imagens; imagens direcionadas a um grupo específico de pessoas que poderão adquirir um objeto do porte de uma Mont Blanc. A partir disso, pensamos em uma atividade que de alguma maneira pudesse fazer essa ligação e estimulasse este tipo de leitura com os colegas da turma.

Então, na mesa do coquetel, expuseram-se inúmeras canetas dos mais variados modelos, formatos e tamanhos, novas e velhas, para que cada um dos colegas escolhesse uma, partindo da apresentação original de cada uma delas. Colocamo-as lado a lado formando o desenho de um meio círculo, e nenhuma delas estava compactuada a nenhum aporte publicitário externo. A intenção era de que fossem adotadas realmente a partir de sua originalidade, ou seja, sua própria publicidade – aparência, design, cor, tamanho, etc.

A seguir solicitamos que aqueles que se sentissem a vontade relatassem o porquê da escolha de tal caneta. Assim, aos poucos, a turma toda aderiu à atividade expondo suas argumentações relativas à suas escolhas.

A justificativa de escolha é mutável para cada colega, mesmo ao pegar a “mesma caneta”. A divergência de pensamentos é que faz da convivência um grande ponto de interesse, traz a curiosidade de o que “o todo” está pensando sobre um determinado assunto ou objeto que será apresentado.

A partir dos relatos, observou-se que a leitura semiótica que cada um realiza a partir de um texto não verbal, utilizando somente a imagem construída pelo objeto exposto, através da aparência, da apresentação, estabelece uma relação de apropriação com o ser que o observa, mesmo que esse ser não seja um admirador de tal objeto, conforme o autor se refere no texto (Oliveira, 2006, pg 167) “[…] mesmo que o futuro usuário não seja um amante do hábito da escrita, ele pode adquiri-lo através da caneta”.

Pensando na análise semiológica do anúncio[5], iniciamos refletindo onde está impresso o anúncio: Revista Vip. No próprio nome podemos perceber que os assinantes desta revista são very important people. Seu consumo já é designado a um público específico.

No anúncio, temos a foto da caneta tinteiro Mont Blanc e ao lado um poema escrito em inglês “escrever é escrever é escrever é…”. Duas observações interessantes. O poema está diagramado da mesma maneira da caneta a seu lado, seguindo os mesmos traços, dando o sentido de que a canela é a própria escrita, ou que somente com aquela caneta conseguirá escrever sublimemente. Já o poema se torna infinito em suas palavras, passando a ideia de durabilidade da caneta.

Durante a apresentação da análise semiótica foi discutido a supervalorização explicita no texto. Uma hora diz que a caneta está como que flutuando sobre o tinteiro. Logo a frente descreve o limite inferior da caneta dizendo que evita “a noção de que a caneta está em suspenso”. O mesmo acontece na análise das cores. Ora descreve as cores prata e dourado da caneta dando-lhes significados distintos, mas em seguida fala de significações idênticas um do outro, relativo a regiões diferentes do mundo.

Acreditamos que a semiótica, nesse caso da caneta, acabe dando significado e supervalorização até aos detalhes que fariam parte da caneta independente de ser Mont Blanc. Assim, quando o autor analisa o contraste das cores com o azul do tinteiro, lhe atribui valores e significações supérfluos se pensarmos que a tinta azul estaria de qualquer maneira no tinteiro e não estaria lá para significar “alguma coisa”. Se a cor fosse preta (que são as duas cores mais comuns), o autor “acharia” outra série de significações. Sobre o tinteiro, concordamos apenas que o tinteiro sendo de cristal atribui requinte, porém é preciso ler para obter tal informação.

Um dos aspectos mais interessante da atividade de semiótica é a questão referente ao status social relacionado ao objeto em discussão, e como o fetiche de um objeto é determinante nas impressões incutidas nos indivíduos. Num contexto da globalização em que estamos condicionados ao papel de consumidores-cidadãos, e a cidadania deslocada sempre em segundo plano.

A exposição do convidado e sua postura simples ajudaram a desvelar seu papel de colecionador. E a impressão deixada foi a de que o status se torna algo menos importante frente à prática de um hobby.

Com a experiência vivenciada nesta atividade, um membro do grupo de trabalho aproveitou para fazer provocações pedagógicas com seus alunos em sala de aula, questionando a questão do fetiche das marcas mais desejadas pelos adolescentes, e aproveitou o exemplo da marca Mont Blanc. A comparação causou um espanto impressionante nos alunos, principalmente o fato relacionado ao valor astronômico de um objeto que cumpre uma simples função de uso corriqueiro em nosso cotidiano, ou seja, uma caneta.

O colega também refletiu, com os alunos de sua classe, sobre a função estética dos objetos, que conferem status, sem perder de vista as condições históricas que nos tornam desiguais, pois afinal de contas a aula prevista para aquela turma, naquele dia, era sobre a Revolução Francesa. Desta forma, o exemplo da caneta Mont Blanc caiu muito bem como tema gerador da aula, deixando a turma tão interessada e participativa como nunca antes.

Os seminários de semiótica, em geral, com suas abordagens temáticas, impulsionaram a leitura do mundo para além das imagens publicitárias. Configurando-se uma experiência facilitadora da prática docente.

Todas as visões, reflexões, conceitos e pontos de vistas sobre um devido objeto, se diferem de acordo com cada indivíduo. A semiótica atua formando distintas opiniões, ideias e conceitos de um mesmo produto, seja ele qual for, fazendo com que esse mesmo crie um universo de contextos.

A leitura do texto trouxe uma proximidade ao universo da marca Mont Blanc, que se mostra totalmente focado a uma realidade que se difere do normal, dito popular. Onde quem possuir essa caneta é ou será dito um consumidor de alto padrão do mercado econômico, e isso é apresentado nitidamente ao ver os valores que são oferecidos às canetas.

Por outro ponto de vista, as canetas têm um histórico de modelos muito bem elaborados, para colecionadores, elas contam uma história que passam por diversos artistas conceituados da história, músicos, pintores, artistas, sem falar nos diversos escritores que possuem um modelo de caneta Mont Blanc em seu nome. Todas com um livro contando parte de seus trabalhos de vida, deixando o “comprador/consumidor” a parte e com um material em mãos de sua trajetória de vida.


[1] OLIVEIRA, Sandra Ramalho e. Uma caneta “três chic”. In: _____ Imagem também se lê. São Paulo: Rosari, 2006. P. 155-170.

[2] Acadêmicos do curso de Especialização em Pedagogia da Arte, FACED, UFRGS. Turma 2012. Disciplina: Leituras Semióticas: Arte, mídia e cotidiano, professora Analice Dutra Pillar.

[3] Caneta-tinteiro Mont Blanc, Meisterstuck 149.

[5] Anúncio da caneta Mont Blanc que é o foco do artigo da discussão.

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