Pobres Árvores de Porto Alegre

Paineira na Praça Brigadeiro Sampaio em foto de Edgar Mai.

Em maio de 2012, lembraremos os 10 anos de falecimento de José Lutzenberger, e, ao que tudo indica, a ativista indiana Vandana Shiva será uma das conferencistas do Fronteiras do Pensamento deste ano, em evento que homenageará o grande ecologista gaúcho.  Porto Alegre, que já foi sinônimo de preservação ambiental, tem hoje uma população indignada com as recentes atitudes da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM), e a indignação é tão grande que lançaram uma petição pública em repúdio à derrubada das árvores, que são postas ao chão sob a tosca justificativa de que sob suas copas escondem-se os marginais de nossa cidade. Se um espaço público é frequentado por gente suspeita, essa é mais uma razão para que as autoridades invistam em políticas públicas para combater e coibir as ilegalidades. Investimentos em segurança preventiva, como iluminação, instalação de câmeras de vigilância e policiamento efetivo adequado.

Esse movimento de indignação popular intensificou-se recentemente com a derrubada de uma figueira na Praça Otávio Rocha e ganhou novos adeptos nesta última quinta-feira, quando moradores da Rua dos Andradas, no Centro Histórico, choraram mais uma vez: a SMAM, em pleno verão, mandou decepar (podar?) as árvores da Praça Brigadeiro Sampaio. É lamentável que isso esteja se tornando frequente e que o argumento usado seja sempre o mesmo, o de que as árvores estão servindo de abrigo para os meliantes. Dona Claudete, moradora das imediações e frequentadora do espaço, não escondia sua indignação: e desde quando marginal dá em árvores? perguntava. Como ela e dezenas de outros moradores, eu também frequento essa praça, para onde alguns levam seus filhos, e outros, os seus cachorros. Durante o dia procuramos a sombra das árvores pra fugir do calor escaldante. E a SMAM, que deveria plantar árvores, contribui para que a situação piore ainda mais! Lembro que a época de podas geralmente acontece entre junho e julho, e não agora, quando a planta está em plena atividade, cheia de vida. Uma lástima e uma tremenda falta de bom senso, ou seria falta de conhecimento?

Percebe-se que a SMAM age sem atender à demanda e às reivindicações dos cidadãos. Uma moradora do entorno da Praça dos Cata-ventos, no Jardim do Salso, viajou para o Uruguai no início de fevereiro, e antes da viagem havia contatado a referida secretaria por três vezes, pedindo que solucionassem o problema da derrubada de arbustos e árvores naquele espaço. Até o momento, nenhuma resposta da Prefeitura! Agora ela está pensando em organizar um mutirão para ajudar as “meninas” que estão literalmente tombadas no chão!

Já quem vive ou transita na zona Norte de Porto Alegre, nas proximidades da Plínio Brasil Milano, nas imediações da Avenida Andaraí, percebe, além da explosão imobiliária, com imensos prédios residenciais, o mau cheiro predominante, que se intensifica nos dias de calor, devido ao esgoto a céu aberto em que se transformou um riacho que passa entre as ruas José Scutari e Luiz Cosme. Será que a Prefeitura não percebeu ainda o problema e não fará nada para mudar esse quadro?

José Lutzenberger também foi homenageado recentemente na abertura do II Encontro Brasileiro de Secretários do Meio Ambiente, evento que aconteceu durante o Fórum Social Temático e que foi promovido pela Câmara dos Deputados. Na oportunidade, cada Secretário recebeu um exemplar de seu último livro, “Garimpo ou Gestão”, organizado pela jornalista Lilian Dreyer. Tudo indica, no entanto, que os representantes da pasta, em nosso município, até hoje não leram a obra. Porto Alegre está se tornando uma cidade que reverencia os seus antepassados, mas de nada adianta cultuarmos a memória dos mortos se não aprendemos com estes o verdadeiro valor de suas atitudes. Pedimos às autoridades responsáveis, como o Ministério Público, Delegacia Ambiental e IBAMA, que analisem as ações da Prefeitura de Porto Alegre e avaliem a legalidade ou ilegalidade das medidas antiecológicas adotadas nos últimos tempos pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente de nossa cidade.

13 comentários sobre “Pobres Árvores de Porto Alegre

  1. Excelente artigo do Christian sobre a histeria antiárvores que tomou conta da Prefeitura de Porto Alegre. Vem por aí, agora, o projeto de “urbanismo” encomendado para a orla onde já disseram que vão “adequar a altura” da vegetação (leia-se arrancar as árvores nativas da beira d´água para fazer espaço para botecos concessionados e quejandos). Saudades de quando o RS tinha um movimento ambientalista…

  2. Gostei muito de ver prosperar uma oposição ao que em sendo feito em PortoAlegre.Vou entrar nesa corrente e divulgar tudo o que puder a respeito. Um abraço!

  3. Chris,

    de volta com tudo, heim? Beleza.

    Beleza de texto. Algumas semanas atrás, retornando a Porto Alegre depois de um tempinho fora, tive o privilégio de passear sobre tapetes de flores de canafístula, em várias ruas da cidade, e fiquei pensando o quanto devemos àqueles velhos ecochatos que tanto lutaram, e ainda lutam, pelas nossas árvores. Me senti muito grata a eles. Mas é como tu dizes, homenagear pioneiros não garante a preservação, do mesmo modo como marginal não dá em árvores (achei ótima a frase).
    Também já presenciei o triste espetáculo de podas violentas em árvores em flor. No mínimo dos mínimos, tem que capacitar quem faz esse trabalho, instruir sobre técnica elementar de poda.
    Abração.

  4. Chris,

    creio que o Truda e a Lilian já disseram tudo sobre o excelente texto. Salientaria apenas que a SMAM não somente ignora às demandas dos cidadãos assim como e, principalmente, à da própria Natureza.

    Forte abraço

  5. Excelente artigo! Infelizmente, não é somente em Porto Alegre que isso ocorre. É uma praga endêmica a todo o Brasil.

  6. Muito bom o texto do Christian. A retirada da árvore gigantesca da Praça Otávio Rocha foi uma vergonha. Fui ao centro estes dias e o local cheio de tapumes parece um campo de guerra. Trincheiras, foi o que vi.
    Faltam especialistas, técnicos em meio ambiente à SMAM ? Faltam biólogos ? Faltam ecologistas !!
    De que adianta uma Praça que nos relembre os Anos 20, os Anos 30, sem sombreamento algum, sem pássaros e sem abrigo ?
    É uma lástima !

  7. Ilustres :

    Proposta : milhares de hectares e milhooes ( assim mesmo ! ) de arbóreas desapareceraao ( idem ! ) nas usinas em construçaao em RO e PA ! Naum ( idem ! ) seria possível resgatarmos algumas milhares dessas cujas espécies possam se adaptar ao nosso ambiente ( pouca gente sabe disso : há áreas da Amazoonia ( idem ! ) onde tb e com certa freqüencia faz frio ; a ” friagem ” ! ) ? Poderiamos repoo-las ( idem ! ) aqui , escolhendo algumas já medianamente crescidas ! Com a palavra os amigos Engenheiros Florestais e transportadores !!!!!!!!!!

    PS : web-ortografia !

  8. Parabéns Chris pelo excelente artigo. Que bom que temos pessoas como você para fazer acordar autoridades “competentes” para que façam valer as tantas leis criadas por eles mesmos. Santa Hipocrisia!.

  9. Olá, Christian!Bem vindo esse texto, pois Infelizmente a SMAM-Porto Alegre tem funcionado como um tipo de predador, em relação a nossas árvores. Outro dia me dirigia ao cento da cidade lá estavam os funcionários da SMAM decepando árvores a margem do Dilúvio. E são muitos eventos desses tipo pela cidade. Não dá para entender o que se passa, pois a instituição que deveria zelar por nossas árvores está aniquilando e, quem não sabe que verão não é tempo para podas, acho que só a SMAM.

  10. Um absurdo total! Em pensar que um dia Porto Alegre já foi lembrada e amada justamente pelas suas árvores… Parabéns pela iniciativa Christian! Temos sim que buscar os trâmites legais para acabar com essa ação estúpida da prefeitura e da SMAM.
    Aliás, sou bióloga e me envergonho toda vez que órgãos que deveriam trabalhar para proteger o meio ambiente fazem exatamente o contrário.
    O que está acontecendo com esses biólogos que estão sendo jogados no mercado todos os semestres, que tipo de formação estão tendo? Ou estão contratando “técnicos em meio ambiente” formados sei lá eu onde – para pagarem menos – desqualificando totalmente o trabalho que deveria estar sendo feito por uma Secretaria de meio ambiente!

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