Britto Velho

Obra de Britto Velho – Sem título, 2008 – Acrílica sobre tela, 80 cm x 120 cm
A efervescência cultural de Porto Alegre não nos possibilita ficar acomodados. Se pudéssemos, toda semana colocaríamos na agenda um compromisso com as artes. Isso tudo é reflexo da qualidade e do reconhecimento de nossos artistas. Somos privilegiados com a diversidade de linguagens e manifestações. Nas artes cênicas, temos a Casa de Teatro e o TEPA que formam profissionais qualificados e transformam seus espaços em ambientes de variadas intervenções artísticas – só para citar dois exemplos.  Há outros, com certeza. Nas artes visuais, não é diferente. Como se não bastassem os grandes centros expositivos, espaços de menor tamanho, mas não de menos importância, têm se destacado pela programação que oferecem, caso da Galeria Fita Tape, na Avenida José Bonifácio e da Galeria La Photo, na Travessa La Paz.
Com curadoria de Paula Ramos, a Galeria La Photo inaugurou recentemente a nova exposição de Britto Velho, oportunidade em que também foi lançado um livro-catálogo. A obra traz um interessante texto de apresentação assinado pela curadora, a reprodução das 28 telas que compõem a exposição, e uma cronologia do artista. Em seu texto, Paula Ramos diz que “Como obra aberta que é, a poética de Britto Velho admite múltiplas e antagônicas interpretações, e talvez seja isso que a torne especialmente fascinante.” O artista plástico Ênio Monteiro, que esteve comigo na vernissage, compartilhou seu conhecimento para que eu pudesse fazer uma leitura das telas com minhas próprias observações e percepções. Obviamente, quem o conhece, sabe que Brito Velho é um artista veterano e que sua estética consolidada é facilmente reconhecida pelo público. As obras, que permeiam pela linguagem da pintura e desenho, impressionam pelas formas orgânicas, cores fortes e vivas, pela significativa presença de faces, desconstruções corpóreas humanas e de animais. Personagens que têm importância por si só, não existem cenários, nem fundos trabalhados que os abrigue. Todos os elementos se encontram de maneira chapada, sem luz e sombra, e sem profundidades.  Por trás da atrativa, colorida e aparente docilidade, remetentes a uma imagética infantil, percebe-se uma força inquietante e surreal. Sobre seu processo criativo, Paula Ramos observa que o artista, curiosamente, aciona uma dupla concentração: atenta à feitura meticulosa do trabalho e, ao mesmo tempo, aos íntimos movimentos a sua volta. Absorto e silencioso, com a respiração mínima necessária, incorpora estilhaços do cotidiano ao pensamento e à fantasia. Em entrevista concedida à jornalista Suzana Sondermann Espíndola, em 1985, Britto Velho disse: “[…] Sou tão pouco racional que, em alguns casos, o quadro toma a batuta e passa a reger sua própria sinfonia, alterando cores que definira no projeto original, sugerindo novas formas e soluções”.
Artigo publicado no Correio do Povo, de Porto Alegre, edição do dia 30 de junho de 2011.

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