Depoimento Paulo Autran

Paulo Autran

 

No dia 23 de julho de 2004, estive na residência de Paulo Autran, na Alameda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo. Autran concedeu-me uma entrevista para a Biografia da Olga Reverbel. Neste dia, passei a tarde toda com ele, conversando sobre Olga e sobre teatro. À noite, fomos ao Teatro Vivo, onde estava em cartaz com a peça Visitando Sr. Green, ao lado de Cássio Scapin. Depois, saímos para jantar. Fiquei dois dias acompanhando a rotina do Paulo Autran, que me mostrou seu apartamento, suas obras de arte, sua biblioteca (a maior parte dos livros estava na biblioteca de sua casa no litoral, não me lembro se em São Paulo ou no Rio de Janeiro). Sou grato por ter privado de momentos tão intensos, apesar de curtos. Grato pelas coisas que ouvi e pelo que aprendi em tão pouco tempo. Tenho consciência que só tive esse privilégio por estar ali pela Olga. Não tive coragem de pedir para ser fotografado ao seu lado, não pretendia ser invasivo. Afinal, eu estava ali para colher a sua contribuição para a Biografia de sua amiga.  Hoje, lamento. Agora, retomando o trabalho para finalizar a obra iniciada há seis anos, emocionei-me ao degravar e editar nossa conversa.

Depoimento de Paulo Autran para Biografia de Olga Reverbel

Conheci Olga em 1957, na temporada que a Companhia Celi (do Adolfo Celi e eu) fez com Otelo, no Theatro São Pedro, muitos anos antes da sua grande reforma. No dia da estréia fiquei conhecendo a Olga Reverbel, e a nossa impressão foi que Porto Alegre inteira foi àquela estréia. Na mesma noite eu fiquei conhecendo Olga, Érico e Mafalda Veríssimo. Meu Deus, tanta gente lá! Zilá Moreira e muitos amigos que continuaram amigos nossos enquanto viveram. E outros, amigos até hoje.

Pra mim, a Olga era sinônimo de alegria, de diversão. Ela e o cunhado da Zilá Moreira, o Paulo Guedes, marido da Zuleika Guedes, irmã da Zilá Moreira (minha memória também não está grandes coisas), eles faziam números maravilhosos. E o Antônio Messias e a Olga faziam um número que era um conjunto mexicano, e era a coisa mais divertida, mais engraçada que você possa imaginar. A Olga não tinha pudor de espécie alguma. Quando ela fazia um personagem, ela integrava aquele personagem, ela botava um pano na cabeça, não se preocupava em ficar bonita, nem feia. O que ela queria era fazer o personagem. Aos poucos fui conhecendo melhor a Olga e vendo todo o outro lado de cultura e de paixão pelo teatro que ela sempre teve. Depois, como eu fui muitas vezes a Porto Alegre com a minha Companhia, então, já sozinho (tosse), eu fui vendo o trabalho extraordinário que a Olga fez na escola onde ela trabalhou antes, o Instituto de Educação General Flores da Cunha. Ela inclusive escreveu dois livros ensinando como usar o teatro para dar aulas de qualquer matéria, até de matemática. E ao fazer isso, ela mostrava aos alunos a importância do teatro. Ela despertou, criou verdadeiramente um público capaz, um público inteligente em Porto Alegre, pelas inúmeras turmas que passaram pelas mãos dela.

A Olga sempre foi convidada para participar de praticamente todos os festivais de teatro, justamente para dar aulas e palestras sobre teatro. Ela é uma autoridade no assunto, sem a menor dúvida. E a Olga nunca teve a pretensão de fazer teatro. Ela nunca, sendo minha amiga, nunca nem sequer insinuou a possibilidade de um dia fazer um papel, de ser uma atriz. Os números cômicos que ela fazia em nossos encontros, nas nossas festinhas, aos improvisos, ela fazia à perfeição! Mas nem por isso ela tinha a ideia de se tornar atriz um dia. Nunca percebi isso nela não! Se ela participou de algum trabalho, ela deve ter feito a pedido de diretores que precisavam de um rosto como o dela; e ela, aberta como sempre foi, deve ter aceitado, não pra fazer uma carreira de atriz.

Quando Olga vinha a São Paulo, me procurava sempre. Vinha assistir as minhas peças, e as opiniões da Olga sobre todos os espetáculos que eu levei a Porto Alegre, sempre foram de uma pessoa sensível, inteligente, muito culta. Era uma delícia conversar com ela sobre os espetáculos depois dela assisti-los. Ela tinha uma opinião absolutamente própria. Não se deixava influenciar pelo que tinha lido das críticas em São Paulo. Elogiosa ou não, ela tinha a opinião dela. A opinião formada dela. Opinião abalizada. É uma pessoa que eu respeito pelo seu conhecimento de teatro. Ela teve uma escola de teatro em Porto Alegre, isso depois de aposentada. E a Olga não é só minha amiga, é muito amiga de Tônia Carrero também. Aliás, quando eu conheci Olga em 57, elas já se conheciam. A Tônia conhecia a Olga de Paris. Elas tinham passado uma temporada juntas. A Olga e o Carlos, e a Tônia e o primeiro marido dela, que era Carlos também, o Carlos Thiré. Então, a Tônia é amiga da Olga a mais tempo do que eu. Posteriormente, há poucos anos, relativamente poucos anos, a Tônia foi para a Europa e levou a Olga também. Ficaram juntas em Paris uma temporada longa, na cidade onde se conheceram logo depois da segunda grande guerra, no tempo em que havia ainda um racionamento terrível, em 1947.

Li os dois livros que a Olga me deu e fiquei impressionado com a facilidade que ela tinha de mostrar às pessoas como é que se pode usar o teatro para dar aula de qualquer matéria. Fiquei impressionado com isso. Professoras me disseram que lendo os livros da Olga passaram a utilizar técnicas teatrais pra dar aulas de outras matérias em seus cursos. A influência da Olga foi e é muito grande no Brasil inteiro.

Quero contar um fato imprescindível, que mostra exatamente como é a Olga. O Carlos Reverbel, marido dela, uma pessoa adorável, um grande escritor, um homem de simplicidade impressionante e capacidade intelectual rara, ele ficava lendo até muito tarde, e a Olga ia mais cedo pra cama. Numa ocasião, ela me contou, era 4 horas da manhã, o Carlos a acorda com a voz, assim:

Olga! Olga!

Ela acordou:

O que é Carlos?

Ele:

Precisamos conversar!

Ela levou um susto. O marido, depois de tantos anos, de repente, de madrugada, 4 horas da manhã, vamos conversar? Então, ela se enrolou no cobertor, sentou na cama:

Sobre o que queres conversar, Carlos?

Ele:

Sobre a incapacidade de comunicação entre seres. Sobre as angústias da velhice.

Ela fez uma pausa, e falou assim:

Vá à merda Carlos! Virou pro lado e dormiu. (gargalhadas e tosse)

Eu só sei que ela me contou, mas logo depois o Carlos me contou às gargalhadas o mesmo fato! (Pede mais um café à secretária, continua).

Era difícil ir à Porto Alegre sem ir à casa da Olga. Ela sempre fazia uma reunião. A comida na casa da Olga sempre foi uma coisa deliciosa. E ela mesma ia para a cozinha fazer uma mousse de chocolate que era uma coisa deliciosa. Eu nunca consegui a receita dessa mousse. A filha dela pensa que faz igual, mas não faz! A mousse da Olga é inigualável! (risos) E sempre foi assim. Conversar com eles, com o Carlos, era um prazer extraordinário. E a casa deles sempre estava aberta pra receber todo mundo. Com a casa divertida, conversa inteligente, um reduto da inteligência e do prazer intelectual, isso era visitar a Olga.

A Olga não tem nada do que se chama espírito burguês. Ela não tem nada disso! É uma pessoa inteiramente livre de preconceitos, livre de veias burguesas. Ela sempre agiu instintivamente de acordo com a sua inteligência. Tem uma história muito engraçada dela num Porto Alegre em Cena. Eu estava numa mesa com uma atriz, e essa atriz era um pouco exagerada. Ela estava falando que quando ela entrava em cena tudo desaparecia, o personagem baixava, e ela podia estar sentindo qualquer dor que a dor desaparecia. A Olga então diz assim: Oh fulana! Quer dizer então que teatro é bom pra cólica menstrual? Eu vou avisar umas amigas que ainda tem isso! (gargalhadas) Isso aconteceu no foyer do Theatro São Pedro.

O Recado: Olga, querida, tas vendo que voz horrível eu estou? E to fumando ainda porque sou burro! Não sou inteligente como tu és! Um bom descanso pra ti aí em Santa Maria. Estou louco pra voltar pro Rio Grande do Sul pra te encontrar outra vez!

Proibida a reprodução deste texto em parte ou no todo, em qualquer mídia, sem  prévia autorização. Para maiores informações entrar em contato com c_lavich@yahoo.com.br

2 comentários sobre “Depoimento Paulo Autran

  1. Christian, que maravilha!!! Amei teu blog e esta entrevista com Autran é de arrepiar. Gosto do jeito como escreves, nos coloca na exata dimensão do sentiste.

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