Heranças Polonesas

Jadwiga Jablonski

Jadwiga Jablonski, do alto de seus quase 104 anos, é hoje, sem dúvida, quem melhor representa o imigrante polonês que, muito mais por circunstâncias históricas que por escolhas próprias, nasceu e viveu, como milhares de outros na mesma situação, em uma pequena propriedade rural no interior do Rio Grande do Sul.

Em sua certidão consta o dia 22 de agosto de 1909 como data de seu nascimento. Porém, Jadwiga, ainda lúcida, apesar de muito fraca, afirma que seu nascimento remonta à noite de 22 de agosto de 1906. O atraso de três anos no registro é explicado pelas dificuldades de deslocamento enfrentadas à época pelos imigrantes “da Colonia Guarany”, então “5º Districto do Municipio de São Luiz Gonzaga”, onde ficava o cartório mais próximo.

 

Naquele tempo, por menor que fossem, os deslocamentos eram sinônimos de grandes sacrifícios, e só realizados em situações de extrema necessidade. Por isso, Bronislaw Jablonski, pai de Jadwiga, só registrou a menina três anos mais tarde, quando somaram-se a ela dois irmãos mais novos também precisando de documentação. Era comum, nestes casos, ocultar a verdadeira data de nascimento no ato do registro, evitava-se assim, em tempos de muitas dificuldades, a cobrança de multas pelo período que a criança passou sem a devida identificação.

Jadwiga tinha como mãe Anna Jablonski. Seus avós paternos eram Teófil e Catharina Jablonski, e seus avós maternos Jan e Mariana Jerczewska. Jadwiga dificilmente deixa o sítio onde mora, a dez quilômetros de Guarani das Missões. Até hoje não fala português. Seu idioma permanece o polaco, e no dia em que a visitei, na despedida, cantou-me duas músicas do folclore polonês que lhe foram ensinadas por sua mãe quando tinha apenas sete anos.

Mesmo sendo o terceiro maior grupo migratório a se estabelecer no Rio Grande do Sul, pesquisas realizadas em sites de buscas fornecem poucos dados sobre a história dos poloneses que escolheram o Brasil, principalmente a região sul, como sua nova casa. O município de Guarani das Missões, no noroeste do estado, tem 85% de sua população formada por descendentes de poloneses.

Considerada capital polonesa dos gaúchos, a cidade realizou, entre os dias 27 e 30 de maio, a 9ª Polfest Internacional, período em que confraternizou também com os poloneses do Paraná. Apesar de a festa estar voltada para a cultura e costumes trazidos da Polônia por imigrantes que desembarcaram no estado a partir de 1891, a programação da Polfest se mostrou diversificada, com apresentações de grupos folclóricos alemães e italianos, além do Ballet Ucraniano Kalena, que veio de Oberá, Argentina, especialmente para o evento.

Ainda abalados pela morte do presidente Polonês, Lech Kaczynski, ocorrida no dia 10 de abril, os descendentes que se reuniram no interior do Estado festejaram as tradições trazidas pelos antepassados, apresentando um leque de atrações já previsíveis: shows folclóricos, culinária, artesanato e jogos típicos que são comuns nas festas realizadas pelos colonizadores das mais diversas etnias que compõem o cenário do Rio Grande do Sul.

Em Guarani das Missões, a Santa Missa foi celebrada em polonês pelo padre Antônio Polanczyk. Nascido no interior do município, filho de agricultores e bisneto de imigrantes, Polanczyk viajou à Polônia em 1995 e lá permaneceu até 2002. Foram sete anos de estudos até ser ordenado padre e voltar ao Brasil para atender as comunidades formadas por descendentes de poloneses.

Além das antigas tradições apresentadas nas festas típicas, no Brasil pouco se conhece da intelectualidade polonesa. No entanto, essa situação, aos poucos, começa a mudar. O pianista gaúcho Tiago Halewicz atua como músico e pesquisador da cultura polonesa. Foi na classe da pianista Maria Szraiber, na Academia de Música Fryderyk Chopin, de Varsóvia, que teve seu interesse pela cultura polonesa desperto.

Assim, a título de pesquisa de pós-graduação, debruçou-se sobre a obra do compositor Karol Szymanowski. Desde então, o repertório dos compositores de origem polaca faz parte de seus programas de concerto. No StudioClio, em Porto Alegre , Halewicz é curador do projeto Memória Cultural Polonesa. Neste ano, em virtude das comemorações do bicentenário de Fryderyk Franciszek Chopin, o projeto coordenado por Halewicz apresenta concertos oficiais do Ano Chopin e ainda produz um documentário sobre os 200 anos do compositor polonês, um dos maiores expoentes do romantismo.

A Polônia tem cinco ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura: Henryk Sienkiewicz (1905), Wladyslaw Reymont (1924), Isaac Bashevis Singer (1978), Czeslaw Milosz (1980) e Wislawa Szynborska (1996). Em 2000, Henryk Siewierski lançou pela editora UNB, a História da Literatura Polonesa. Professor do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, mestre em Filologia Polonesa e doutor em Ciências Humanas pela Universidade Jagelloniana de Cracóvia (Polônia), Siewierski é autor de diversos estudos e ensaios sobre a literatura polonesa, tendo traduzido várias obras de autores poloneses publicados no Brasil, entre eles, Bruno Schulz, Bronislaw Geremek e Tomek Tryzna.

Além de Siewierski, são poucos os que se dedicam a estudar e a traduzir para o português a literatura polonesa. Talvez o brasiliense Marcelo Paiva de Souza e a curitibana Regina Przybycien também o façam com esmero. Marcelo, que não tem descendência polonesa, concluiu seu mestrado na UNB em 1996, e sua dissertação apresenta um estudo de Catatau (1975) de Paulo Leminski.

Depois de se debruçar sobre a obra de Leminski, o grande poeta curitibano, filho de pai polonês e mãe negra, Marcelo partiu para Cracóvia como bolsista do Ministério da Educação da Polônia. Em 2000 concluiu seu Doutorado em Ciência da Literatura pela Universidade Jagelloniana, onde defendeu tese sob o título “O Teatro do Desassossego: Estudo Comparativo da Dramaturgia de Stanislaw Ignacy Witkiewicz e Oswald de Andrade”.

Desde que retornou ao Brasil já passou pela UNB e pela UFES. Em 2009 assumiu como professor adjunto do Departamento de Línguas Modernas da Universidade Federal do Paraná. Regina Przybycien, também professora da UFPR, doutora em literatura, ministra aulas de literatura brasileira na Faculdade de Filologia Romana da mesma Universidade de Cracóvia. Dividida entre Cracóvia e Curitiba, onde orienta mestrandos e doutorandos, ela ainda encontra tempo para traduzir importantes obras polacas para o português, tendo predileção pela poesia.

Depois da morte de Paulo Leminski, ocorrida em 7 de junho de 1989, ano em que completaria 45 anos no dia 24 de agosto, Letícia Wierzchowski tornou-se uma das escritoras brasileiras mais admiradas da atualidade, e talvez seja a única descendente de poloneses a alcançar tal êxito.

Diferentemente do poeta paranaense, a gaúcha de Porto Alegre enveredou pelas narrativas longas, presenteando-nos com novelas e romances históricos. Alguns deles apresentam a saga dos poloneses que vieram para o Brasil, como em Cristal Polonês (Ed. Record 2003) e em Uma Ponte para Terebin (Ed. Record 2005). O último relata, de forma envolvente, a trajetória do avô de Letícia, Jan Wierzchowski, que deixou a Polônia rumo ao Brasil em 1936, pouco antes de eclodir a II Guerra Mundial.

O destino de Jan em terras brasileiras seria um pequeno povoado na região das Missões, no interior do Rio Grande do Sul. Em meio a conflitos e sofrimentos, ele perde a esposa que adoece durante a longa viagem de navio até o Brasil e chega viúvo à Guarani das Missões, onde não permanece por muito tempo, apenas o suficiente para casar-se novamente. Então, logo se desfaz de sua pequena propriedade e parte com a mulher para a capital, Porto Alegre, construindo uma nova vida.

Já em O dragão de Wawel e outras lendas polonesas (Ed. Record 2005), voltado para o público infanto-juvenil, Letícia Wierzchowski e Anna Klacewicz apresentam aos leitores dez pequenas narrativas cheias de sonho e de magia, lendas do folclore da Polônia, dessas que constituem a parte impalpável e fundamental de uma gente, como definem as próprias autoras.

Pouco difundida no Brasil, mas significativa e reconhecida mundialmente, a contribuição dos poloneses para a cultura e o conhecimento universal vem de longe. Nascido em Torun, em 1473, o astrônomo Nicolau Copérnico é autor da teoria heliocêntrica, relacionada ao duplo movimento dos planetas sobre si mesmos e em torno do sol. Ou seja, Copérnico não só acreditava como provou que a terra era apenas mais um planeta que concluía uma órbita em torno de um sol fixo todo ano e que girava em torno de seu eixo todo dia. Apesar de ter desenvolvido sua teoria algumas décadas antes, esta só foi publicada com o título “Das revoluções das esferas celestes” em 1543, ano de sua morte.

A Polônia também deu ao mundo Maria Sklodowska. Nascida em Varsóvia em 1867, exerceu suas atividades profissionais na França, onde adotou o nome de Marie Curie após casar-se com Pierre Curie, com quem dividiu o Nobel de Física de 1903 pelas descobertas no campo da radioatividade. Em 1911 recebeu o Prêmio Nobel de Química pela descoberta dos elementos químicos rádio e polônio, tornando-se a primeira pessoa a ser laureada por duas vezes.

Dos séculos passados para a contemporaneidade, poderíamos falar mais do reconhecimento aos cineastas Krzysztof Kieslowski e Andrzej Wajda, do premiado jornalista Ryszard Kapuscinski ou até mesmo da popularidade de Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II, que pregou a cultura da paz e foi o primeiro Sumo Pontífice a visitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém. Em 1983 Lech Walesa recebeu o Nobel da Paz por seu ativismo em defesa dos direitos humanos e Joseph Rotblat é contemplado com o mesmo prêmio em 1995 pelos seus esforços contra o armamento nuclear.

Em terras brasileiras, a comunidade polonesa se orgulha de alguns imigrantes ou descendentes que se destacaram no cenário nacional. Nascido em Kozienice em 1921, o escultor, pintor e artista plástico Frans Krajcberg estudou engenharia e artes na Universidade de Leningrado, chegando ao Brasil em 1948, depois de passar pela Academia de Belas Artes de Sttutgart, Alemanha.

No início morou no Paraná e depois no Rio de Janeiro, alcançando reconhecimento internacional e alternando residência entre Paris e Ibiza. Atualmente reside no Sul da Bahia, onde mantém ateliê no Sítio Natura, no município de Nova Viçosa. Em 2003 foi inaugurado em Curitiba o Instituto Frans Kajcberg, que recebeu a doação de mais de uma centena de obras do artista, reconhecido também por denunciar as queimadas no estado do Paraná, a exploração de minérios em Minas Gerais e o desmatamento da Amazônia.

No Rio de Janeiro, Zbigniew Ziembinski alcançou notoriedade como dramaturgo e Berta Loran, vinda de Varsóvia e cujo nome original é Basza Ajs, destacou-se como atriz e comediante. Em Curitiba, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner revolucionou o transporte público, tornando-se consultor das Nações Unidas para assuntos de urbanismo. O jovem ator paulista Dan Stulbach é o primeiro membro de uma pequena família de judeus poloneses a nascer no Brasil e, assim como Jadwiga Jablonski, cresceu ouvindo a língua polonesa e as histórias que o avô lhe contava sobre a vida na Polônia.

Publicado em www.viapolitica.com.br em 13/06/2010. Também publicado na edição impressa do Jornal do Comércio, de Porto Alegre, em 02 de julho de 2010.

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