A obra de Senise

Há cerca de dois anos, mais ou menos, Lara Lutzenberger me presenteou com a edição do livro Ela que não está, editado em 1998 pela Cosac & Naify,  que reúne em fotos a produção do artista plástico carioca Daniel Senise. Além de proporcionar um encontro com as obras deste que se tornou um dos mais elogiados artistas brasileiros contemporâneos, o livro traz textos assinados por Ivo Batista e Gabriel Pérez-Barreiro que auxiliam na compreensão de sua criação. As obras de Senise estão espalhadas por museus e coleções particulares em todo o mundo, inclusive em Porto Alegre, onde algumas peças do período 2000/2008 podem ser apreciadas até o dia 28 deste mês em sua segunda exposição individual no MARGS.

Buscando entender o que faz um colecionador apostar na obra de determinado artista e sempre me perguntando se colecionar obras de arte é um prazer ou um investimento, procurei respostas nos amigos que entendem do assunto. Justo Werlang, um dos admiradores de Senise, explica que, em arte, preço e valor são coisas que não necessariamente andam juntas, e que investimento e coleção são idéias incompatíveis, já que para obter-se o possível ganho financeiro com a venda das peças, destrói-se a coleção. E não é pelo tamanho que se determina uma coleção, mas pela existência de um nexo, de uma linha condutora para sua formação. Sendo o retorno financeiro o objetivo proposto, não se forma uma coleção, mas sim um acervo de peças. Werlang acrescenta que em momentos como o que estamos vivendo, em que os mercados especulativos geram uma enorme liquidez, normalmente se observa o aumento de fluxo de recursos para o mercado de arte. Os preços das peças de arte sobem, e sobem mais na medida em que sejam bem aplicadas técnicas de marketing pelos “players” do mercado, em movimentos também especulativos. Como investimento, outros mercados implicam em menor volume de riscos e oferecem maior liquidez. A decisão de compra que tiver por base um projetado retorno sobre o investimento, tende a limitar a experiência do “investidor” à oscilação dos preços de mercado. Tende a tornar mais opacas as possibilidades poéticas da obra.

Quem for à exposição que está no MARGS, e sugiro que ninguém perca a oportunidade, deve ir com o entendimento de que a obra de arte é fruto da reflexão do artista sobre um problema específico, expressa em linguagens visuais. No caso de Senise, o sucesso de suas obras reside, antes de mais nada, no refinamento de sua técnica, e as peças que estão nesta mostra individual, vistas de vários ângulos, permitem ao espectador várias leituras, apesar da familiaridade de algumas imagens que fazem parte de nosso cotidiano.

Publicado no Correio do Povo em 11 de setembro de 2008.

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