A Escola São Roque

A campanha Ler é Tudo – Leia Mais, promovida pelo Correio do Povo e pela Rede Record, em parceria com o Banrisul, trouxe-me boas lembranças. Com a frase “Ler é um instrumento contra a dominação”, a estudante Moany Lazarotto Scheren, da Escola Estadual de Ensino Médio São Roque, do município de Sete de Setembro, a 500 km de Porto Alegre, foi uma das contempladas. Confesso que fiquei orgulhoso quando li no jornal que uma aluna “do Sete” estava entre as premiadas. Como prêmio, além do MP3, Moany indicou a escola para receber R$ 5 mil em vale-compras para ampliação da biblioteca.

Filho de pais gaúchos, nascido no Paraná, todos os anos aguardava ansioso as férias de verão ou de inverno para vir até o Rio Grande do Sul visitar os tios e avós, quase todos estabelecidos na região das Missões. Em 92, numa destas vindas, acabei ficando. Fui acolhido pelo tio Vilson, irmão de minha mãe, e pela tia Lourdes, sua esposa, funcionária da Escola São Roque. Morei um ano com eles. Aprendi muita coisa, inclusive a lavar meus sapatos e a louça. Não estudei na Escola São Roque, onde, além da tia Lourdes, uma prima era bibliotecária. Tia Diva, outra irmã de minha mãe, diretora da escola. Eu, sempre que podia, visitava-as. Conversava com os professores e alunos. Fiz amizades. Adorava o recreio. Na verdade, a merenda. As escolas públicas do interior ainda são de ótima qualidade. Organização impecável, sem o vandalismo evidente da maioria das escolas da região metropolitana. Tenho um grande carinho e boas lembranças daquela época. Faz alguns anos que não visito o Sete. Férias aliadas a compromissos profissionais geralmente me levam a outros lugares. No Sete, ensaiei um início de namoro com a Sinara, prima da Moany. Coisa de adolescente. Não vingou. Fiz amizades que carrego no coração, a Débora Geruza, o Marcelo Dalmaso e o Diogo Stasiak, filho da atual diretora da escola.

Lembro de acordarmos cedo, eu e a prima Keila, e irmos até o sítio do tio ordenhar as vacas. Ordenha a punho. Caminhávamos cortando caminho pelos potreiros. Na volta, chegávamos em casa com metade do leite. O restante se perdia entre as batidas constantes do enorme balde com as pernas, que ficavam roxas. Os tropeços também ajudavam. Os baldes só voltavam cheios quando o tio liberava o velho fusca azul-petróleo. Então, rezando, eu atravessava o “mata-burro” de madeiras já apodrecidas que dividia sua propriedade com a do vizinho. Essas recordações e o êxito da Moany na campanha do Correio do Povo me deixaram feliz. Porque nada impede que estudantes dos mais distantes e desconhecidos rincões possam ter uma educação de qualidade, destacando-se profissionalmente e colocando suas cidades de origem no mapa do conhecimento.   

Publicado no Correio do Povo no dia 26 de janeiro de 2009.

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